oh seu guarda… quebra essa!

Hoje levei uma multa. É a segunda na Suíça e será a segunda que vou pagar. Sem perdão. Lembro que na primeira multa até tentei argumentar, mas as palavras do policial foram: “a multa chegará na tua casa daqui duas semanas”. E chegou, com a famosa e angustiante precisão suíça.

Quando morava na Austrália, trabalhava em um bar. Uma noite, quando fui sentar do lado de fora no bar para descansar um pouco na minha pausa, observava do meu lado um garoto sendo preso porque fazia xixi na parede. Até imaginei ele dizendo: “peraí seu guarda, deixa só eu acabar minha mijadinha e já vamos para a delegacia.”

Na Austrália e aqui na Suíça, quase sempre, as pessoas devolvem os objetos perdidos. Mesmo que sejam telefones e todas as coisas do tipo. Geralmente devolvem a carteira sem nem mesmo tirar o dinheiro de dentro. Minha chefe (suíça) me contou um dia que achou uma nota de 100 no chão e entregou para a polícia! Ela dizia que se ninguém fosse procurar pela nota perdida, depois de um certo período os policiais dariam o dinheiro a ela. Parece mentira?

Existem leis e leis. Existem policiais e policiais, culturas e culturas e povos e povos. E, para confirmar todas as minhas suspeitas, recebi um e-mail muito engraçado e que nos dá um tapa na cara de tão real. Para não ficar muito longo, vou resumir o e-mail entitulado “O BRASILEIRO É ASSIM”:

- Suborna, ou tenta subornar, quando é pego cometendo infração.
- Troca voto por qualquer coisa: cesta básica, areia, cimento, tijolo, dentadura.
- Pega atestados médicos sem estar doente, só para faltar ao trabalho.
- Faz gato de luz, de água e de tv a cabo.
- Compra recibo para abater na declaração do imposto de renda, também para pagar menos imposto.
- Escreve que a cor da pele é mais morena, para ingressar na universidade através do sistema de cotas.
- Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado.
- Comercializa os vales-transporte e vales-refeição que recebe das empresas onde trabalha.
- Falsifica tudo, tudo mesmo. Só não falsifica o que ainda não foi inventado.

Depois de tantas outras frases sobre as nossas malandragens e jeitinhos, o e-mail termina assim:

E querem que os políticos sejam honestos!!!
Ora, os políticos que aí estão, saíram do meio desse mesmo povo. Ou não ???

É difícil aceitar que seja verdade, que já fizemos muitas coisas assim. Uma das frases era “- Estaciona em vagas exclusivas para deficientes.” e foi assim que tomei a primeira multa. Um amigo estava muito atrasado para pegar o trem e não tinha estacionamento livre na estação, aí só encostei o carro na vaga, só que no tempo de tirar a mala do carro e sair, o policial já tinha multado.

Eu estava -- muito -- errado, mas meu amigo pegou o trem em tempo e eu fiquei imaginando como seria alguém tentando subornar um policial suíço. Nem o mais malandro dos malandros conseguiria fazer algo assim aqui. Muitos brasileiros se dão mal no exterior por isso. Esquecem que não estão no Brasil.

Mas, atrás de todos esses defeitos, temos muitas qualidades que faltam aos gringos. Temos a malícia e a sensualidade que poucos no mundo têm. Temos a guarra e a vontade quando queremos trabalhar pesado e conquistar nosso espaço. Temos a capacidade de sermos verdadeiros amigos, para todas as horas, coisa que pouquíssimos gringos conseguem.

E -- para mim -- o mais importante de tudo: sabemos rir e fazer piada de nós mesmos, enfrentando situações de risco e imprevistos com o jeitinho que só nós temos. E os gringos nunca terão. A ginga, o rebolado, a pegada, o olhar malicioso. Somos a perfeição da imperfeição. Um dom que nos permitiu espalharmos, como formigas, pelo mundo todo. Ou -- como diriam alguns -- espalharmos como praga.

Um pouco de malícia não faria mal aos gringos. E, a nós, um pouco mais de consciência e respeito. É pedir muito?

Imagem de Amostra do You Tube

Grande abraço e muita paz!

Michel P. Zylberberg
www.rodandopelomundo.com

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