Um balanço geral

Chega um momento na vida que temos que fazer um balanço geral e penso que não exista momento melhor do que este.

Estou quase chegando aos 30 anos, bem casado, com muitos bons amigos, me firmando na minha profissão (designer gráfico/web) e morando na Suíça.

Era mais fácil apostar na Papua-Nova Guiné campeã do mundo de futebol do que na possibilidade de chegar inteiro até os 20 anos de idade. Nem eu apostaria em mim. Porque eu aproveitei, vivi tão intensamente o presente que nunca pensei que pudesse ter um amanhã, um futuro.

Mas talvez o que tenha me salvado foi ter escolhido ser um cara do bem, que nunca fez mal a ninguém – ou pelo menos nunca quis fazer.

Acabei minha faculdade em 2005 e fui para a Austrália com um inglês básico e a promessa de que não pediria mais dinheiro aos meus pais. E não pedi. Trabalhei duro, fiz de tudo e me virei. Cresci.

E foi lá que meu destino mudou mais uma vez, quando entrei na sala de aula do curso de inglês e vi uma italianinha tímida no seu primeiro dia de aula.

Italiana sim, mas ela morava na Suíça e acabei abandonando meu sonho australiano para tentar a vida nos alpes. Quando cheguei – em 2007 – não conhecia nada, mas logo me adaptei e pouco tempo depois nos casamos.

Casamento, trabalho, novos amigos, primeiro inverno rigoroso. Viagens – Cuba, Espanha, Grécia, Alemanha, Itália, França, Egito… dois trabalhos em três anos, um demitido por causa da crise e outro onde decidi me demitir.

Nesse balanço entra a difícil pergunta: trabalhar independente vale a pena? Ou seria melhor procurar um outro emprego? Um período de muitas certezas, mas de infinitas dúvidas.

balanço geral

Casar ou comprar uma bicicleta? Já sou casado e esses dias pintei a minha bicicleta velha que agora está como nova! Então a dúvida poderia ser aquela do ovo e da galinha… ovo eu gosto do jeito que for e um frango assado ou um filé de frango também não dispenso.

Como diria o grande Chico Buarque: “É sempre bom lembrar / Que um copo vazio / Está cheio de ar (…) Uma metade cheia / Uma metade vazia / Uma metade tristeza / Uma metade alegria”.

Já rodei os cinco continentes, mas quero muito mais; já perdi alguns dentes, mas aprendi a cuidar dos que sobraram; já bebi toneladas de cerveja, mas aprendi desde cedo a não me viciar em nada; já tive doenças psicossomáticas, mas aprendi que o cérebro cura boa parte das coisas; já fui baleado, mas sobrevivi sem sequelas.

Já fui em baile chique e em favela; já viajei em business e em charrete; já fui chamado de alemão e de negão; já tomei blue label, mas prefiro uma cachaça caseira; escrevi mais de 700 poesias, mas nunca publiquei; nunca gostei de dinheiro, mas aprendi que sem ele é difícil viver.

Já tive gastrite, bruxismo, já quebrei os dois pés, já pisei em fundo de garrafa, já troquei de faculdade várias vezes,  já matei muita aula para ir jogar sinuca, já aprendi duas línguas novas e quero mais.

Já chorei – e muito, já fiz muita gente rir, já fiz muitas festas, já tive muitas crises de depressão. Fui em mago, cigana, xamana, centro espírita, cartomante, numerólogo, fiz yoga – para descobrir que não precisava de nada disso.

Fiz Jiu-Jitsu, Tae Kwon-Do e capoeira e não gosto de brigar. Já fiz aula de violão, de bateria e de baixo e não sei tocar nada. Já usei havaianas e bermuda por muitos anos e poderia usar a vida toda.

Já escrevi muitas coisas e sei que pouca gente tem paciência e tempo de ler tudo. Mas não esquento. Se você leu, agradeço.

Já acreditei em destino – e vou sempre acreditar. Ao contrário de Zeca Baleiro, eu quero isso, seja lá o que isso for.

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