A riqueza virtual do primeiro mundo



Quatro anos atrás decidi morar na Suíça e logo de cara muitas coisas me impressionaram. Pude confirmar que a precisão deles realmente existe, tanto na parte de infraestrutura, quanto como organização social. Sem falar da segurança, qualidade e tudo mais que o mundo todo já sabe.

Mas depois de alguns anos aqui claro que muitas “máscaras” caem e, com certeza, está longe de ser um paraíso. Precisão nem sempre é sinônimo de perfeição.

Não choro de barriga cheia, pois tenho um trabalho fixo como Designer em uma agência de publicidade, mas parece que o ditado que mais se encaixa aos suíços é o famoso ” tem tudo, mas não tem nada”.

Relações familiares completamente mecânicas, um filho aqui geralmente é visto como um business e muitíssimos casais preferem nem ter filhos. Máximo um cachorro. Morrem com a conta cheia e o coração vazio, trancados em um asilo.

Esses dias assisti o documentário “Solo andata, il viaggio di un Tuareg (Só andada, a viagem de um Tuareg) – di Fabio Caramaschi” que mostrava uma família que morava no deserto do Saara na Nigéria até quando o pai decidiu ir morar e trabalhar na Itália. Mostravam os contrastes entre os dois países e toda dificuldade de integração, inclusive dos filhos. Mas o que mais me marcou foi uma resposta tipo: “os ricos não têm tempo para ter filhos, estão sempre ocupados e correndo – pensam sempre nos custos que um filho pode dar. Já os pobres têm muitos filhos porque sabem que eles são a verdadeira riqueza”. Achei fantástico!

Aliás, dinheiro aqui é um assunto muito complexo. O salário mínimo para quem trabalha 100% gira em torno de 3500 francos, mais de 6000 reais. Posso imaginar a reação de vocês, pois tive a mesma… Mas tanta infraestrutura, segurança e tudo mais não cai do céu, cai na conta!

Um custo de vida terrivelmente alto, seguro saúde, aluguéis de outro planeta, apartamentos a venda por preços exorbitantes e inviáveis, quase todos bens de consumo e alimentares importados… Basta uma comprinha no supermercado e lá se vão algumas dezenas ou centenas de francos suíços (a moeda local).

Aqui não existe a miséria de morrer de fome, não existem favelas, mas existe a tal pobreza virtual. Eu gostaria de comprar um carro, mas não posso. Gostaria de sair mais vezes para jantar fora e tomar umas cervejas, mas não posso. Gostaria de viajar mais, mas não posso. É uma vida de “sacrifícios”. O efeito de ver um salário mínimo tão alto pode causar estupor, mas se é salário mínimo, é a prova de que o custo de vida aqui exige um mínimo assim.

A luta por salários melhores faz parte da cultura deles, mas ao mesmo tempo o que mais se vê aqui são profissionais milionários e insatisfeitos. De que adianta ter uma casona, Ferrari e tudo mais e continuar sendo uma pessoa frustrada? Para suicidar ou passar pela vida como se nunca tivesse existido? Não valeria a pena ajudar aqueles que realmente precisam e não têm nem o que comer? O outro lado da moeda parece nem existir por aqui.

O índice de suicídio aqui é absurdamente alto, mas ninguém fala a respeito. Pessoas infelizes, vazias. Grandes profissionais renomados que se matam – aparentemente sem razão. Será? A pressão por resultados aqui é algo de outro mundo! O câncer também não perdoa. Ritmo de vida, alimentação, estresse e tantas outras coisas que estamos cansados de saber.

Sempre brinco que os suíços deveriam ir ao menos 6 meses ao Brasil, África ou outros lugares onde as pessoas devem realmente lutar pela sobrevivência. Selvas urbanas onde vence a eterna lei do mais forte.

Venho de família de classe média no Brasil e, mesmo com algumas dificuldades, vivi uma vida realmente boa! Para ter o mesmo padrão de vida do Brasil aqui na Suíça eu teria que ser classe alta, altíssima. Aqui não tem classe baixa, mas o buraco entre a média de alta é gigantesco.

Ao contrário de outros países ricos, aqui médico e dentista custam um absurdo! Fiz um orçamento para ajeitar uns dentes e não me assustei quando me disseram que seria bem mais de 5 mil francos. E olha que meus dentes não estão assim tão mal. Existe uma máfia incrível, não é a toa que sempre vou ao dentista no Brasil – onde a qualidade também é milhões de vezes superior!

Meu projeto é morar aqui até me aposentar, juntando dinheiro para viver uma velhice feliz e tranquila no Brasil, mas já não sei se o projeto vai vingar. A não ser que eu viva uma vida de eternos sacrifícios. Mas não quero ser mais uma pessoa depressa e frustrada por aqui.

O que mais me faz pensar é que o Brasil poderia ser muito mais rico que a Suíça, sei bem que os impostos lá também são absurdamente altos, mas infelizmente o dinheiro quase nunca chega ao destino. O Brasil tem matéria prima de sobra, um clima perfeito o ano todo e infinitas riquezas naturais. Temos que ficar de olho sempre mais, pois os gringos cedo ou tarde vão “cair em cima”! Eles morrem de inveja da nossa “ginga”!

Aqui conseguiram criar uma sociedade virtualmente rica e verdadeiramente depressa. Eu fico com a felicidade, pois a riqueza nunca comprou e nunca comprará a felicidade. Sei que estão nas pequenas coisas e é nisso que vou me ligar enquanto viver aqui! E você?

Abraços e muita paz,

Michel P. Zylberberg
www.rodandopelomundo.com

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Michel Zylberberg

Criei o blog em 2006 para compartilhar as minhas andanças pelo mundo, já rodei por mais de 20 países e gosto de incentivar as pessoas a conhecerem o que esse mundão maravilhoso tem a oferecer! Conto com a colaboração de amigos e convidados para poder trazer um conteúdo relevante e interessante, sempre junto com a minha grande paixão - a fotografia.