Os relatos de um PM e um médico sobre a dura realidade brasileira



Que o gigante tenha finalmente acordado ninguém mais duvida, mas agora que a poeira das primeiras manifestações baixou um pouco, decidimos publicar dois depoimentos sobre duas das classes mais discutidas dentro de todo o contexto político e social brasileiro: um policial militar e um médico:

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PROTESTOS NO BRASIL – A VISÃO DE UM POLICIAL MILITAR

Não é fácil colocar o que penso sobre os protestos populares do meu País. Mas sinto-me no dever de falar sobre o caso como um policial militar, pois tenho visto pelas redes sociais muitos comentários sobre violência praticada por policiais contra manifestantes.

No Brasil, nos últimos anos, foram várias as paralisações e manifestações de policiais e bombeiros militares pelo Brasil. Nós tivemos, em muitos casos, apoio da população – como aqui no Estado do Ceará. A luta por dignidade e isonomia em direitos trabalhistas com os demais servidores públicos tem sido uma luta constante. Com isso, tivemos uma aproximação boa com os demais servidores, assim como uma melhor compreensão de que também somos uma categoria (ainda precisamos melhorar muito mesmo assim). Em consequência, passamos a almejar estarmos mais próximos da população em seus movimentos sociais.

Em muitos Estados brasileiros tivemos casos de polícias compartilharem esses momentos de protestos com a população – caso do Amazonas, os policiais levaram sua banda de música para tocar no protesto –, nesses casos, os protestos foram bem pacíficos. Isso quer dizer que uma parte maior das Corporações policiais apoia as reivindicações do Povo. Repressão e truculência são palavras que os trabalhadores da base das polícias militares querem deixar pra trás. Infelizmente, o treinamento militarizado deixa ainda muitos de nós com a visão de que estamos combatendo um inimigo e que devemos exterminá-lo. A sociedade perde com isso. Àqueles que não foram contaminados com as instruções militares, muitos, são ludibriados com gratificações em dinheiro nas Forças Especiais (grupos das polícias altamente militarizados, especializados em ocorrências de grande complexidade e de deter a todo custo manifestações de servidores públicos e populares). A estes devemos depositar a responsabilidade da violência policial que temos visto nos meios de comunicação. Compreendemos as reivindicações da população e compartilhamos seus anseios. Somos também vítimas dos enganos de nossos governantes e o único objetivo destes agora é nos colocar contra o povo e o povo contra nós.
[ Victor Eremita* – Soldado da Polícia Militar do Ceará (23.06.2013) ]

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SAÚDE: SERÁ QUE FALTA DINHEIRO MESMO?

Dizem que ter saúde é o bem mais nobre que um ser humano pode ter. Por isso, deveríamos cuidar bem da nossa. A constituição federal, inclusive, diz que o governo vai cuidar disso para a gente. Então criou-se o SUS, um sistema em que você pode tratar suas doenças sem ter que pagar nada além dos seus impostos. Só que, como tudo no Brasil, uma coisa que era para ser ótima acaba, no final, dando errado.

Por culpa de quem? Tem gente que adora botar culpa nos médicos (e até em outros profissionais de saúde). Não vou defender minha classe 100%, porque não existe perfeição em nenhuma categoria. Nem eu trabalho 100% perfeitamente todos os dias. Isso seria sobre-humano! Mas querer bons salários é uma aspiração justa para quem lida, afinal de contas, em preservar o “bem mais nobre que um ser humano pode ter”. Ter uma boa qualidade de vida é algo a que todo profissional aspira. E sobre vocação, não há nenhum médico aí que não passe por muito perrengues para poder praticar a profissão que ama. Garanto para vocês.

Mas daí, a dificuldade de um posto de saúde em resolver os problemas dos pacientes deixa a população descrente com os postos de saúde. A dificuldade em se marcar exames deixa a população descrente com o sistema de agendamentos. A dificuldade em se contratar especialistas deixa a população descrente com os investimentos públicos em montar policlínicas. A dificuldade em se conseguir cirurgias deixa todo mundo puto achando que é culpa do médico que não haja mais horários vagos nos blocos cirúrgicos de sua região.

Então sobra o quê? Quando a saúde primária e básica empurra os problemas com a barriga, sobram as emergências e as UTIs. Para quem não sabe, estes são os lugares para onde as pessoas vão para se socorrer quando nada mais funcionou. É para onde os prefeitos das cidades menores despejam os seus doentes e para onde os leitos parecem nunca serem suficientes para dar conta da demanda. Claro, o dinheiro nunca será suficiente se ele for gasto depois que a coisa já degringolou.

O sistema de saúde brasileiro hoje só consegue dar conta de coisas já degringoladas. Às vezes até se sai bem. No nosso hospital a gente já salvou a vida de muita gente, já curamos muitas crianças e é melhor, claro, ter uma saúde de emergências do que nenhuma. E sei que muita gente nesse enorme Brasil vive longe de qualquer esperança. Mas como resolver isso? Como levar saúde até lá?

Enquanto os sindicatos médicos e entidades médicas propõem soluções e investimentos, o governo prefere gastar sempre com remendos e tapa-buracos. O dinheiro do país, afinal, é finito. É até compreensível imaginar que não seja possível solucionar TUDO de uma só vez. Mas daí vem uma coisa chamada planejamento, vem uma coisa chamada competência, vem uma coisa chamada interesse.

Enquanto os cargos administrativos são distribuídos não por competência, nem por resultados, nem por merecimento, mas como moeda de troca em acordos partidários, continuaremos a ver a nossa saúde eternamente sem dinheiro. Enquanto não colocarem profissionais de verdade para gerenciar o dinheiro que entra, ele continuará indo direito para o esgoto, sendo gasto com inutilidades e besteiras.

Sabe quando uma empresa quer ser um serviço de excelência? Ela tem que fiscalizar cada etapa e cada setor para garantir efetividade e produtividade. Eu já vivi a experiência de trabalhar em lugares que são modelos de excelência pelo SUS. De verdade. E a diferença lá é o espírito empresarial. É um grupo inteiro engajado para que a coisa funcione bem. Nesses serviços, nem todo mundo é 100%, mas o ambiente estimula o crescimento de todos, como equipe. Todos acabam dando o melhor de si.

Eu sempre digo que o problema do nosso país não está em falta de dinheiro, mas no “jeitinho brasileiro”. Enquanto continuarmos tratando as coisas públicas com remendos e acharmos, de verdade, que o problema das comunidades mais carentes será amenizado com a importação de médicos que são ainda piores dos que os que já estão aí (já que não são aprovados no exame de revalidação de diploma), é porque o “gigante” ainda não acordou coisa nenhuma.

Eu, de verdade, não acho que falte dinheiro para a saúde. Basta se cumprir a lei, a constituição, o que já está aí. O difícil é fazer com que o dinheiro seja gasto da maneira correta e que haja empenho e vontade em mudar. Mudar muita coisa. Tem muita poeira debaixo do tapete que precisa ser jogada no lixo e muita mobília nova que precisa ser comprada para que a casa possa voltar a funcionar. Mas construir estádio parece ser muito mais fácil, né não? [ Jorge Russel* – Médico (28/06/2013) ]

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Todas as fotos são de Paulo Capiotti, registradas nas manifestações na cidade São Paulo em 2013. Ele faz parte da equipe do blog Rodando Pelo Mundo.

*Os nomes são fictícios. Os textos são fruto de colaborações anônimas.

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Michel Zylberberg

Criei o blog em 2006 para compartilhar as minhas andanças pelo mundo, já rodei por mais de 20 países e gosto de incentivar as pessoas a conhecerem o que esse mundão maravilhoso tem a oferecer! Conto com a colaboração de amigos e convidados para poder trazer um conteúdo relevante e interessante, sempre junto com a minha grande paixão - a fotografia.