Chapada dos Veadeiros – De carona na aventura do desapego (Parte 1)



Depois do sucesso do post sobre Paraty, Hanny Saraiva volta com outra colaboração super especial. Dessa vez ela nos presenteia com a primeira parte de uma aventura na belíssima Chapada dos Veadeiros, em Goiás:

O meu destino de viagem foi decidido assim: “Venha para cá, a gente sai e pede carona.” “Sim.” O plano seria ir pra Região dos Lagos aqui do Rio de Janeiro, mas eu e um amigo acabamos a conversa com uma compra de passagem pra Brasília e consequentemente uma ida pra Chapada dos Veadeiros, sem a mínima noção do que fazer, onde ficar e como chegar nessa tal Chapada. Desculpe minha ignorância, mas eu só conhecia por nome. Ok, eu sabia que ficava em Goiás e pensei: Ótima forma de viver, fugir para o mato. Apenas isso.

13 dias passei lá. Alguns com esse meu amigo, outros sozinha. O que eu aprendi e que gostaria de dividir, por mais louco que pareça? Eu não planejei nada. Simplesmente aportei em uma terra desconhecida e lá fiquei. Confesso que foi a melhor coisa que qualquer viajante poderia fazer. Por quê? Aprendi uma coisa muito importante: confiar é ainda um dos maiores desafios do ser humano. Desapegar também. E as duas coisas andam lado a lado, pulsando no mundo sem que as pessoas divulguem que é possível sim trocar com o outro. O que difere de um viajante sem planos e um turista? Um cadinho de fé que as coisas se ajeitam. Turista precisa de mapas e localizações precisas, um viajante sai por aí. Um talvez precise das direções porque foi colocado em sua mente que o mundo é violento e que as pessoas são más. O outro, por mais ingênuo que pareça, ainda acredita que as experiências entre essa espécie localizada em todo planeta Terra é a única coisa válida quando se sai para conhecer outra cultura e outros costumes.

Dia 1: “não se apegar a nada”.
A primeira coisa que tive que deixar para trás foi minha barraca de camping. Aeroporto carioca lotado, cheguei em cima da hora e não me deixaram despachá-la. Adeus ao único objeto que eu tinha desde minha adolescência e que vivia dizendo que era meu único bem precioso. Pisei em solo brasiliense encantada com o céu, com aquela sensação de que se pulasse poderia tocar nas nuvens. Uma ida rápida ao Lago Paranoá (“Eu sou surfista do Lago Paranoá”), no Pontal do Sul em fim de tarde. Belo início de noite por lá. Fico com a sensação de que Brasília foi construída em cima de barro. Para meu amigo é terra vermelha.

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Dia 2: “não se apegar a nada mesmo”.
Perdi meus óculos escuros em uma parada do ônibus para Alto Paraíso. Comprei um pedaço de bolo por um real. Pedimos carona pela primeira vez em Goiás. Dá um frio na barriga sim a primeira vez que você pede carona em outro estado. É claro que eu conheço todos os enredos de filmes de terror sobre viajantes mortos e perseguidos por serial killers. Mas sabe o que acontece quando você tira esse medo da mente? A carona aparece.Duas caronas tomamos até nosso destino do dia: Vila São Jorge. Alguns motoristas paravam e diziam o porquê de não poderem dar carona. Achei curioso. Quem deveria ter mais medo? Quem pede carona ou quem dá? Fica a reflexão.

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Uma volta por São Jorge e decidimos ficar no Camping Taiuá. Você pode até pagar um pouco mais por ele do que nos outros campings, mas foi o banheiro mais limpo que já botei meus pés em um camping brasileiro. Além de possuir almofadas gigantes em locais estratégicos para você ver o céu da Vila. Viajantes simpáticos e descontraídos, cheios de histórias pra contar você encontra lá. Você senta na cozinha e é alimentado com um prato recheado de vivências para ouvir.

Dia 3: “Conhecer pessoas”.
O lado bom de ficar em camping é que você conhece pessoas. Pessoas abertas a trocar, andar com você, explorar junto. Destino do dia: Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

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Cachoeira Saltos I e II.

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E a minha preferida: Cariocas. Porquê? Além das pedras incríveis e deliciosas de andar, havia um arco-íris escondido lá esperando a gente. Quilômetros andados recompensados pelas coisas simples da vida.

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Dia 4: “Ir pra onde o destino te levar.”
Eu não lembro o nome do casal que pedimos carona pro Vale da Lua. Mas eu lembro que quando chegamos ao Vale e uma chuva torrencial caiu, interditando o local, o casal sugeriu que fôssemos às piscinas naturais, Termas. Águas quentinhas, pessoas fumando maconha como se estivéssemos em Amsterdam, sauna e várias borboletas passando pela cabeça de todos. Pessoas atraem pessoas. Fato. Mesmo que você esteja sozinha em um canto, alguém sempre vem puxar conversa. E o ser humano tem uma tendência a querer ficar um tempo em grupo. Fato dois. E não, eu não fumo maconha. Fato três.

Dia 5: “Pedir carona não é simplesmente entrar no carro de alguém.”
“O Abismo é muito irado.” “Ok, vamos.”Partimos eu, meu amigo e um outro novo amigo, a pé, em rumo a uma placa que dizia “ABISMO. SE JOGA.” Depois de alguns minutos andados, um carro aponta além. Meu dedo levantado e um sorriso. “Pra onde vocês vão?” “Pro abismo.” “Deixa eu ajeitar para vocês entrarem”. A carona do Gustavo e do Gildeon nos rendeu dois dias em lugares irados. Trilhas. Cachoeiras. Olhar o horizonte. Cruzar com bichos alados. O peso urbano saindo de minhas costas.

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Dia 6: “Porque tudo acaba em música.”
A forma como você vê sua viagem está intimamente ligada pelo tipo de música que você escuta por onde vai. E dá pra saber um pouco sobre a personalidade da pessoa conforme o tipo de música que ela bota pra você ouvir no carro dela. Isso é um fator importante para saber se dá para confiar (de novo) nas pessoas que te dão carona. Além de ser um bom início de conversa. Conhecemos a Cachoeira da Catarata dos Couros.

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Um banho com uma chuva torrencial. Andar, andar e andar. Isso sempre acaba na cozinha do camping. Ganhei uma pimenta de um coroa que me afirmou que se eu plantasse, eu ficaria eternamente agradecida com o tipo de pimenteira que teria (p.s. = em casa, apenas joguei a pimenta na terra em um vaso e não é que a moça cresce belamente mesmo?).

Dica antes de ir embora da Vila de São Jorge: a Risoteria que pode ser encontrada se você seguir as velas colocadas ao longo do caminho. Lá você encontra música, boa comida e um lugar descontraído e relaxante.
É cansativo andar quilômetros e quilômetros? Para alguns sim. Mas é engraçada a força do cerrado. Quanto mais você anda, mais leve parece ficar. Aqui em Vila de São Jorge você ainda pode encontrar pequenos cristais pelas trilhas e cruzar com tucanos, papagaios, aves exóticas e pessoas singulares.

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E você? Já pediu carona antes? Como foi?

p.s. fotos tiradas pelo meu amigo Wátila Lobo e por mim, com a câmera de celular do Motorola G. E pelo Gustavo Barruffini, por uma Nikon.

Confira em breve a segunda parte dessa grande aventura aqui no blog!

Sobre Hanny Saraiva:
Contista. Blogueira.
Professora universitária.
Colecionadora de canetas.
Viajante na empresa Mundo, vasto mundo.
Mais em hannysaraiva.wordpress.com
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Michel Zylberberg

Criei o blog em 2006 para compartilhar as minhas andanças pelo mundo, já rodei por mais de 20 países e gosto de incentivar as pessoas a conhecerem o que esse mundão maravilhoso tem a oferecer! Conto com a colaboração de amigos e convidados para poder trazer um conteúdo relevante e interessante, sempre junto com a minha grande paixão - a fotografia.
  • Lindo de ler! Essa tua coragem é que vai te levar longe! Será que um dias vida ainda me dá a oportunidade de viajar com você?!

    • Hanny

      Sim, pra Índia. Que tal, Flor?