Para refletir: A viagem como um produto perfeito



Viajar não é a solução de todos os problemas e também não é a coisa mais importante do mundo. Não é o único investimento que você faz que te deixa mais rico (como citam muitas imagens nas redes), comprar livros também, por exemplo.

Existe um exagero que vem sendo criado através das redes sociais, que tenta vender a viagem como um elixir da longa vida, uma via de mão única para a felicidade, ou até mesmo o tão sonhado nirvana. Um limbo do mundo moderno.

Já viajei bastante, passei por muitos países e continentes e sou viciado em viagens. Então, mesmo sendo blogueiro de viagem desde 2006, qual motivo eu teria para contrariar as mensagens sempre positivas? Pelo simples fato que viajar pode ser perigoso, não só pela questão da saúde em geral, mas também porque viajar exige grana. Muitas vezes, dependendo da viagem, acaba consumindo mais grana do que você esperava.

A maioria das pessoas que dá a volta ao mundo pede demissão, vende todos os bens e embarca em uma aventura que geralmente “apaga” todo um percurso no país de origem. Aprender novas línguas, conhecer novas culturas, fazer novos amigos… claro que tudo isto é enriquecedor, mas o preço do retorno pode ser alto. E é sobre esta “dívida” que falo aqui.

Muitas vezes voltar para casa representa retomar aquilo que um dia você jogou pro alto, a rotina, o trabalho fixo, férias limitadas e tudo mais. A frustração pode ser tão intensa que pode até mesmo tornar-se depressão – especialmente com uma busca por emprego frustrada e o alto investimento para comprar tudo que foi vendido antes de partir. É um desapego com “reapego”. Existe até um caso recente de uma garota que rodou o mundo e suicidou-se pouco depois de voltar para casa. Claro que é um caso isolado, mas que pode acontecer com cada um de nós ou pessoas ao nosso redor.

O mundo fica sempre mais acessível, mas não quer dizer que ser um cidadão dele seja o estilo de vida perfeito. Alguém que tem uma família e filhos, por exemplo, raramente consegue encarar viagens infinitas.

Existem sempre mais nômades digitais e não tenho absolutamente nada contra, até os invejo muitas vezes, mas em alguns aspectos essa rotina pode se tornar muito complicada. Nunca fui acomodado e sempre abominei o nosso sistema “careta”, então sempre que posso caio na estrada. Porém as minhas viagens são diárias, no lugar onde moro, com a minha família e as coisas que realmente gosto de fazer.

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Foto: www.facebook.com/michelzylberbergphoto

Enfim, qual a mensagem que quero deixar com esse post? A de que viajar é uma das melhores coisas do mundo sim, mas não é algo infalível e – como todas as outras coisas da vida – pode ter muitos efeitos colaterais.

Como o assunto é bem polêmico, convidei dois grandes amigos blogueiros de viagem, confira o ponto de vista deles sobre o assunto abaixo:

Frases de Facebook tendem ao exagero, o que é natural. Eu encaro essas frases como hipérboles. Sabe aquele lance de Jesus ter dito que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha de que um rico entrar o céu? Tipo isso. Um exagero para enfatizar algo. São frases bonitas, legais de compartilhar, mas não dá para levar nada ao pé da letra. A ideia central de todas essas frases é uma só: viajar pode ser uma experiência fantástica, assim como muitas coisas da vida.
Mas é preciso pensar no “pode ser”.Tem gente que não gosta de viajar. Tem pânico só de pensar em ficar muito tempo fora de casa. Inclusive, tenho na minha família pessoas assim. Para esses, viajar não é algo interessante. E eles não estão errados.
Cada pessoa tem um gosto e um objetivo de vida – tem quem queira rodar o mundo e levar um estilo de vida diferente do tradicional, meio nômade. E tem quem queira o estilo de vida tradicional. Tem quem prefira outra coisa. Enfim, cada um faz suas próprias escolhas e nenhuma delas é ruim ou perfeita em si mesma.  Ninguém se torna uma pessoa melhor, mais completa, mais feliz e madura depois de colocar uma mochila nas costas. Viajar pode contribuir para isso, claro, assim como muitas outras coisas.
O que eu acho ruim é colocar toda sua felicidade numa viagem. Viajar me deixa mais feliz, mas não é a única coisa a contribuir para essa equação. Inclusive, viajar nem é a coisa que eu mais gosto de fazer na vida. Se eu tivesse que escolher entre nunca mais viajar e nunca mais ler um livro, ver um filme, escrever ou ter a companhia da minha família e amigos, definitivamente eu nunca mais viajaria. E sem nem pensar duas vezes. Todas as outras coisas são mais importantes do que viajar, pelo menos para mim.
A vida de quem viaja muito não é perfeita, mas uma vida cheia de problemas, de altos e baixos, como outra qualquer.
> Rafael Sette Câmara (Jornalista, blogueiro e nômade digital – www.360meridianos.com)

Não foi nada fácil voltar e recomeçar a vida, ainda mais porque gastei quase tudo o que tinha. Ter que pensar em trabalho novamente, criar uma rotina, se acostumar a não viver novas experiências todos os dias. Foi uma luta diária para voltar a gostar de fazer as coisas que fazia antes.
Mesmo com as dificuldades retomei a rotina, que nem sempre é um conceito pejorativo. Descobri que é essencial para mim fazer exercícios regularmente, conviver com as pessoas que mais gosto e trabalhar, me sentir produtivo. Além disso, aprendi algo que nunca mais deixarei de seguir: “o melhor lugar do mundo, é aquele em que estamos nesse exato momento”.
Sonhar grande e começar a guardar grana no porquinho é o principal para começar a combater a depressão pós-viagem, que pode ter certeza acontecerá. Imaginei que a necessidade de viajar cessaria por um tempo, o que não aconteceu. Agora quero viajar diferente, ainda mais devagar, mas a volta ao mundo apenas atiçou minha vontade.
Acabei descobrindo maneiras de atenuar os efeitos colaterais que ficar em casa causaram em mim e comecei a explorar minha própria cidade como faria um turista, isso ajudou muito. Outras dicas são: receber amigos estrangeiros, ler livros de viagem, acompanhar blogs de turismo, manter contato com os amigos da estrada e conhecer hostels na sua cidade, pois promovem festas e sempre há a chance de conhecer gringos e praticar inglês.
> Guilherme Tetamanti (Empresário, fotógrafo e blogueiro – www.viajandocomeles.com.br)

Curiosamente escrevi um post em 2008, quando viajar ainda não estava tão em voga, que tratava do mesmo assunto. Quem quiser conferir: ir esquecendo do voltar….

Deixe também a sua opinião, gostaríamos muito de iniciar uma discussão saudável e inteligente sobre um assunto tão em voga.

Termino esse post com uma imagem que postei na página facebook do blog e que foi compartilhada por muitos leitores. Representa exatamente o espírito que acredito seja o ideal ao falar sobre viagens:

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“Todas as viagens são lindas, mesmo as que fizeres nas ruas do teu bairro. O encanto dependerá do teu estado de alma.” (Ribeiro Couto)

Abraço e paz,

Michel P. Zylberberg
www.rodandopelomundo.com

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Michel Zylberberg

Criei o blog em 2006 para compartilhar as minhas andanças pelo mundo, já rodei por mais de 20 países e gosto de incentivar as pessoas a conhecerem o que esse mundão maravilhoso tem a oferecer! Conto com a colaboração de amigos e convidados para poder trazer um conteúdo relevante e interessante, sempre junto com a minha grande paixão - a fotografia.