Remando contra a maré? Conheça o relato da família que deixou a França para voltar a morar no Brasil



Uma hora a gente cansa… Cansa de sentir saudade da família, de ver fotos dos amigos no facebook e só poder desejar feliz aniversário por meios virtuais. Cansa de pensar no gosto da manga, do mamão e do pastel de feira, no cheiro do pão de queijo quentinho saindo do forno, nos domingos na praia, no barzinho tocando música ao vivo no final do dia. Então você olha ao seu redor e se sente fora do seu mundo, fora da sua própria vida… Faz as malas, pega os filhos e o marido, arruma emprego no seu país e volta em condições consideradas ideais.

O reencontro com a terra natal é maravilhoso. Você está com a família, mata a saudade dos amigos, come manga, mamão, pastel de feira, pão de queijo quentinho, passa domingo na praia e ouve música ao vivo… mas e depois? É aí que as coisas saem do plano cor-de-rosa e que o país do futuro (aquele futuro que você pensava que tinha chegado) se mostra bem menos brilhante. Você se depara com a corrupção, que também existe lá fora mas menos descarada, vê que sua contribuição como cidadão favorece muita gente, menos você: gente que foi pra cadeia por roubar e matar, gente que se elege para roubar e conseqüentemente matar de forma indireta milhares de pessoas no SUS, gente que não faz nada porque “assim tá bom demais” pois o assistencialismo já supre o mínimo necessário – nesse último quesito a situação não era diferente na França, e isso já me irritava.

Você se rala para pagar uma boa (e cara) escola para seus filhos, reza para não perder o emprego que garante o seguro de saúde, faz as contas todo fim do mês torcendo para sobrar um trocado pra engordar as economias – você sabe que um dia irá precisar – e olha o relógio para calcular o tempo falta para seu marido chegar em casa pois qualquer atraso pode significar um assalto, ou algo pior. Mas você tenta ponderar: ainda tem a praia, as frutas, a família… o barzinho no fim do dia você risca da lista, muito perigoso e cada dia mais caro.

Você liga a TV e vê a bolha estourando na China, os índices de desemprego da Espanha, os atentados em Paris, na Tunísia e até na Austrália. Você se lembra da experiência que teve no México, para onde não deseja voltar. Lembra-se do grande número de moradores de rua que lhe surpreendeu em sua última viagem para Alemanha (Sério??? Sim, muito sério). Abre a gaveta, vê seu passaporte e pensa: para onde agora? Encarar um barquinho e buscar asilo na Itália? Acho que vou me deparar com uma plaquinha “non vacanti”.

Ainda que este texto pareça uma declaração de arrependimento, tenho tempo de esclarecer: Não! Eu não me arrependo de ter voltado para o Brasil pois minha experiência na França foi muito válida mas chegou ao seu limite. Chegou ao ponto onde, por razões pessoais e filosofia de vida, o sistema não me convinha, não me deixava feliz. Hoje vejo meus filhos mais alegres, mais descontraídos, em uma escola que eu escolhi e que respeita a personalidade de cada aluno (não é o caso do ensino francês). Tenho amizade com os pais dos coleguinhas, professores e diretores estão sempre dispostos e atentos. Tudo isso tem o preço alto das noites mal dormidas, dos restaurantes não freqüentados, das viagens de férias que só ficaram nos planos. O Brasil ainda é minha terra, só não sei até quando…

Texto e foto:
Luciana Coura
(agradecemos por ter aceitado o convite do Rodando Pelo Mundo, contando um pouco da sua decisão de voltar a morar no Brasil depois de passar alguns anos com a família na França)

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Michel Zylberberg

Criei o blog em 2006 para compartilhar as minhas andanças pelo mundo, já rodei por mais de 20 países e gosto de incentivar as pessoas a conhecerem o que esse mundão maravilhoso tem a oferecer! Conto com a colaboração de amigos e convidados para poder trazer um conteúdo relevante e interessante, sempre junto com a minha grande paixão - a fotografia.