Qual a melhor época para fotografar o nascer do sol?



Recentemente um amigo me questionou sobre as cores lindíssimas do amanhecer e entardecer de inverno. E isso trouxe a discussão um papo já antigo, quase uma brincadeira que tenho com um outro amigo. Na opinião dele, o inverno nos possibilita fazer fotos mais bonitas, de colorido mais impressionante, por causa do céu mais limpo e até de certa forma do tempo mais firme. Isso tudo é verdade e o colorido tem muito a ver com a inclinação dos raios de sol e consequentemente com a espessura maior de atmosfera que eles tem que atravessar. Apesar de concordar com a maior parte das afirmações, discordo da parte que nos possibilita fazer melhores fotos. E sustento minha opinião no fato de que acredito ser muito mais importante o planejamento de onde o sol estará e, consequentemente, aonde o colorido irá se posicionar, do que as cores e efeitos que a estação possa trazer. Lembrando que a discussão passa especificamente sobre amanhecer e entardecer. Não adianta termos um super arrebol, com cores surreais, cheios de nuvens salpicadas e ele estar no lugar errado, ele não fazer parte da composição que você considera boa. Veja que isso nada mais é do que, em sua essência, planejamento. Pensar na foto, ver de que forma ela será bem feita (e nesse caso isso passa pelo posicionamento do sol) e planejar a época para fazê-la. Se cair no inverno e suas cores fantásticas, ótimo. Se não cair, ótimo também. Uma boa foto planejada para ser executada no verão, dificilmente será uma foto melhor se feita no inverno.

Alguns exemplos práticos do que falei até agora.

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O mapa abaixo da foto é do dia exato que ela foi feita. Repare que o sol (raio amarelo) nasce exatamente na região atrás da estátua e no centro da foto, possibilitando que aquele colorido esteja ali e apareça uniforme na foto.

Agora, repare como seria a imagem feita seis meses depois, do mesmo local. Veja a localização do sol (raio amarelo) e, consequentemente, a localização do colorido. Aquele famoso lusco fusco que aparece 40 minutos antes do sol nascer estaria completamente fora do quadro. A dinâmica da luz seria outra, talvez desse uma ótima primeira luz com os primeiros raios dourados varrendo a cidade, a estátua e o Pão (olha o planejamento aí…), mas em termos de amanhecer, de lusco fusco, foco da nossa discussão, seria impraticável fazer a foto da estátua-pão-céu colorido atrás.

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Agora, sabe qual é a ironia? Esta foto foi feita no inverno…rs. Mas como mencionado, isso não importa. Ela foi feita no inverno porque era a época certa de fazê-la e não porque era inverno.

Vamos ao exemplo contrário:

Essa primeira foto foi feita em meados de Novembro. Repare que o colorido se concentra nas montanhas, foco do meu interesse nesse local. Repare pela sombra do Cristo projetada e pelo mapa abaixo da imagem que o sol está à esquerda da estátua. Se fosse dezembro, ele teria se deslocado ainda mais para a esquerda e todo o colorido estaria concentrado alí nas montanhas.

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Três meses antes, data da foto abaixo, repare que o sol e, consequentemente o colorido, está completamente desconectado das montanhas. E o horizonte alí nas montanhas é bem chocho. Sim, sim, esse fim de tarde não foi dos melhores mas deu para entender, certo? Ainda assim deu para voltar com uma boa foto explorando a composição. Mérito total dessa cidade caótica que é a mais bonita do mundo.

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Agora, repare no mapa abaixo que, se eu tivesse ido lá em julho, no auge do inverno, talvez encontrasse um fim de tarde espetacular, altamente colorido, mas para quem está indo atrás das fotos das montanhas, repare no mapa, repare que pela posição do sol poente (linha abóbora), não valeria a ida. Provavelmente, daria uma bela foto de Niterói em primeiro plano, com a ponte Rio-Niterói em contraste com a Baía de Guanabara, com o Rio de Janeiro ao fundo emoldurado pelo maciço da Tijuca envolto pelo colorido do fim de tarde espetacular… de inverno! Mas aí, meu camarada, voltamos ao início: o planejamento é outro e ser no inverno vira detalhe.

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Fui questionado que a luz é diferente em diversos locais do mundo. Por exemplo: “em Paris a luz é outra, quase lilás, portanto…”. Portanto, vale a mesma ressalva: se o seu objetivo é fotográfico, se pretende voltar com fotos acima da média, dê uma atenção maior ao seu posicionamento. Em outras palavras, planeje uma boa foto. Se o lilás parisiense estiver atrás de você e a Torre Eiffel à sua frente, você nunca terá as luzes da cidade acesas, com a torre e o lilás ao fundo. Não importa que seja um fim de tarde pourpre parisienne.

Indico para os meus alunos que estão prestes a viajar que, sem grandes neuras pois nem todo mundo viaja com o objetivo estritamente fotográfico como um fotógrafo profissional, percam 20 minutos no seu planejamento de viagem para estudar onde o sol morre, onde o sol nasce, onde ele estará posicionado naquele super passeio que você está programando. Às vezes, é mais interessante ir bem cedo e não no fim do dia, como você pretendia. Às vezes, vale a pena pedir ao guia para dar uma esticada e ficar até o sol se pôr.

Olhe a foto abaixo e me responda se não valeu planejar e acordar cedo sabendo que o sol nasceria e jogaria os primeiros raios bem laterais na cidade sagrada de Machu Picchu? Eu poderia descansar e ir de tarde ou poderia acordar muito cedo e entrar na cidade antes do sol nascer para fazer essa foto. Eu optei pela segunda opção. Mas veja a expressão: eu optei! Não foi acaso, não foi sorte. Foi saber onde e quando se posicionar para que a luz daquele momento específico me fosse a mais favorável possível. De novo: sem neuras. Não estava a trabalho. Estava passeando e curtindo o nascer do sol em um local mágico.

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Existem dezenas de aplicativos, jornais diários, sites e observatórios que te dão o grau e o horário exato que o sol se põe/nasce. Se você for old school, tendo a localização, consegue resolver isso com um mapa e uma bússola fácil. Se estiver mais para geek, alguns aplicativos para smartphone e desktop já te mostram isso digitalmente plotado no mapa. Eu uso o TPE ou o PhotoPills. Mas atenção: seja lá qual for o seu caso, como vocês viram nos exemplos aqui no artigo, não adianta ver a posição para maio se você vai em outubro.

Até a próxima! Boa viagem e boas fotos.

Flavio Veloso

*Essa é a minha primeira postagem no Rodando Pelo Mundo. Quem quiser conhecer um pouco mais do meu trabalho, abaixo vão alguns links:

Falamos em detalhes sobre planejamento fotográfico no meu Workshop de Fotografia “Paisagens Cariocas”. Para acessar as informações detalhadas, clique aqui.

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  • Rafael

    Muito bom o artigo, estou estudando esse tipo de planejamento de fotografar em função da posição do sol.

    Vi que usou o Google Maps, sabe informar como ativa essas linhas marcando a trajetória do sol no mapa?

    Obrigado e bons cliques!

  • Cristovam

    Flávio, post excelente, extremamente didático…
    Parabéns!

  • Excelente post, muito bem detalhado. Valeu por compartilhar seu método de planejamento!