Quem foi que disse que você precisa viver uma vida normal?



“Lembro de um dia muito especial. Três horas da tarde. Acabou a luz. Liga a diretoria: estamos liberados. Feliz, contente, vou-me embora para casa. Quando desço ao térreo, olho para o horizonte e vejo uma coisa bem esquisita: uma bola de fogo amarela a milhões de quilômetros daqui. Iluminando um céu de azul claro, céu este que eu estava acostumado a ver pintado de escuro sempre que saía do trabalho. Não sabia que as terças-feiras também batia sol”.

A introdução parece ser um pouco exagerada – foi pensada para ser assim, mas tem um fundo de verdade. Às vezes, nós passamos tanto tempo enfurnados em nosso local de trabalho e nas regras da sociedade, um escritório, um cubículo, uma loja, que nos esquecemos da vida lá fora e que o sol aparece todos os dias. E não precisa ser exatamente assim.

Quando eu me toquei disto, resolvi mudar. Resolvi arriscar. Eu quero um estilo de vida em que eu possa ver o sol às 15 horas. De terça-feira. 

No exato momento em que escrevo, eu estou adentrando a um túnel que não tem mais volta. Ainda que não de forma total, eu estou, pouco a pouco, abandonando a normalidade. Eu rasguei o script da vida. Sabe aquela história de que devemos estudar, trabalhar, achar um par e nos assentar? Quem foi que disse que precisa ser assim?

Essa frase me bateu como um jab no olho e um direto no queixo:

“Quem foi que disse que precisamos viver uma vida normal?”

 

Um direto no queixo – foi como eu me senti que, estando mergulhado na normalidade, eu me dei conta de que eu não preciso viver assim. Foto: Museu do Mangá em Tokyo / André Sarli.

Eu explico. Eu deveria estar na fase de me assentar. Na minha idade, acabando de completar os 30 anos, a sociedade acha que devemos estar prestes a casar ou casados e nos preparando para ter filhos. Trabalho então, nem se fala. Dizem que os 20 anos são a idade de arriscar. Os 30 são quando continuamos o que estamos fazendo.

É, amigo… Eu, apesar de estável, vou largar tudo, em nome de um sonho maluco no país mais caro da Europa. Detalhe: não sou rico e não tenho o dinheiro suficiente. Missão, teoricamente, impossível.

Logo eu que tive uma adolescência e meus 20 e poucos anos de forma atribulada e recheada de dificuldades. As pessoas dizem que eu consegui vencer na vida. Naquele ideal de que as pessoas tem de “vencer na vida” quer dizer fazer faculdade e encontrar um bom trabalho. Passei em uma universidade pública e em um concurso público. Teria tudo para me acomodar agora e nunca mais me arriscar e, só com a aposentadoria, com a mobilidade reduzida e muito menos disposição, aproveitar o que me restaria de vida para andar pelo parque às 15 horas (sem contar os finais de semana, mas eu tenho certeza que você entende a diferença).

Mas, como eu disse, estava me sentindo incompleto. O script da vida não me satisfaz.

Foi bom, sim, chegar aonde estou. Tudo o que eu tenho foi com o suor do meu rosto e anos de estudo. De forma alguma eu penso que é o motivo para parar. Eu quero algo mais.

Eu não quero uma vida normal – quero uma vida que me satisfaça intelectualmente. 

Por isso eu escolhi deixar o meu cargo público e minha carreira promissora no Brasil e tentar a sorte na Suíça, com um mestrado, mesmo não tendo as condições financeiras necessárias. É loucura? Sim. Mas para vencer é preciso ter uma dose de loucura. Como eu disse, eu estou rasgando o script da vida. Para escrever o meu próprio.

Estou rasgando o script da vida. Para escrever o meu próprio.

A sociedade tem planos para você: acomodar-se.

 

O homem na caixa – Gustave Van de Woestyne – Gaston en zijn zuster (Gaston e sua Irmã) – 1923

O que eu vou falar talvez bata no fundo da sua alma como verdade. Bateu na minha, então eu tenho a confiança de compartilhar.

A sociedade toda tem planos para você. A sociedade tem planos para todo mundo. Ninguém quer seguir exatamente os planos da sociedade. Ao mesmo tempotodo mundo tem enraizado o que você deve seguir.

Sabe aquele parente (felizmente a minha família é de boa) que, apesar de não ter a vida mais regrada do mundo, vive perguntando quando você vai casar e ter filhos? E se você é mulher, é pior ainda. Te perguntam loucamente quando você vai se assentar e arrumar alguém. Como se fosse só se amarrando a um par e a um emprego, as mulheres, todo mundo de uma forma em geral, pudessem se tornar alguém, aos olhos da sociedade.

Assim, por mais que ninguém siga exatamente o script da vida à risca, eles tentam. E eles querem que você siga. Se você está solteiro, querem que arrume alguém logo. Se você está desempregado e fazendo planos para ter seu próprio negócio, querem que você se acomode e arranje um emprego para sustentar o negócio de outra pessoa. Se você quer se tornar um nômade digital, acham que isso é errado e que você tem que arranjar um emprego formal. Se você tem um emprego legal, mas a sua vida não é interessante, você tem que se acomodar e tentar continuar no mesmo caminho.

Não estou falando para você sair totalmente da vida em sociedade. Nós trabalhamos, arranjamos um par e temos um filho por várias outras razões. Muito menos estou dizendo para seguir pela ilegalidade. Estou falando das regras morais impostas pela sociedade e pela linha de pensamento de que você só é alguém se seguir este script. 

O plano da sociedade para você: acomodar-se. Uma vez que você tenha atingido um status qualquer, que você sempre quis, avançar talvez seja arriscado demais. Dar um passo para trás então, mesmo que seja para pular cinco para frente, nem pensar: te chamam de burro, louco, inconsequente…

Fugindo do normal

 

“A vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos.” – John Lennon

Vou falar mais uma vez: você não precisa seguir o script e ser de todo normalVocê pode até deixar toda a sociedade feliz, mas será que ficará contente consigo mesmo?

Um desviozinho pode ser diferente. Sabe aquele seu sonho de tocar algum instrumento? Ou fazer aquela viagem pelo caminho de Santiago. Você arranja tempo. Ah, arranja, sim. E se quiser muito, arranja dinheiro. Pessoas vendem os carros e as casas por muito menos. Largam seus empregos e passam a vender arte e comida na rua.

A começar pela rotina da sua semana. Perceba o que você faz sempre e como está preso a isto. Se acorda algum dia da semana um pouco mais cedo se sente incomodado. Mas chegar em casa e ver televisão até dormir é normal. “Mas eu não tenho tempo”. Ok, existem pessoas que realmente não tem e estas são minoria da minoria. Infelizmente, há escravidão hoje em dia. Mas eu estou falando de você, que se está aqui, tem tempo de ler.

As pessoas assistem Big Brother e tem uma audiência enorme. Elas arranjaram tempo para isso.

Coma. Durma.

O cérebro é uma máquina muito potente, ainda desconhecida. Mas como toda máquina eficiente, ela quer gastar pouca energia – as calorias que você consome. Por isso, uma série de tarefas nós realizamos de forma automática e sem pensar muito.

Acontece, de repente, nos vemos acordando às 6 horas da manhã, todos os dias, indo para um trabalho realizar o sonho de outra pessoa – o dono da empresa -, enquanto nós sonhamos em utilizar bem o tempo que não temos por que estamos muito cansados depois de trabalhar.

Mas, repetindo, precisa ser assim? Você vai me perguntar: sair dessa rotina precisa de muita energia, certo? E eu vou responder: por que não tornar sair da rotina uma rotina? Fazer alguma coisa diferente que te satisfaça?

Tornar todo dia uma sexta-feira – aquela que nós sempre aguardamos, mas demora muito para chegar.

A rotina não é de todo ruim. Você pode se acostumar a fazer coisas relativamente difíceis, como esportes de alta performance, estudar para concursos difíceis. Você pode fazer sua rotina sair da antiga rotina.. O problema é quando você se acostuma a não fazer nada. E aí, certamente, você vai dizer que “não tem tempo para nada”.

Sair da rotina é doloroso. Vamos reclamar de tempo. De cansaço. De que o esforço não vale a pena. Mas é gratificante.

Em menos de 30 dias eu vou morar na Suíça. A minha rotina nunca mais será a mesma. E eu torço para, quem sabe um dia, ouvir que ajudei pessoas a saírem da rotina.

A minha ideia com esse texto foi tentar ser inspirador. Não sou o primeiro e nem o último – mas sou um dos poucos que escreve logo na entrada do caminho. Estou só começando a sair do script. Quem quiser compartilhar dessa aventura, que venha comigo.

Boa Páscoa e feliz Natal.

André Sarli, 30 anos, está na maior aventura da sua vida: sair do Brasil e morar na Suíça por, pelo menos, dois anos. Detalhe: não é rico, não vem de família abastada, não tem o dinheiro suficiente e não ganhou nenhum bolsa. A única escolha: fazer o seu próprio destino e se tornar o seu próprio chefe. Formado em Direito pela USP, adora o Japão, gosta de comer pra caramba nas viagens e tem certeza de que não precisa ser rico para viajar. Ele escreve no blog Revoando | página Facebook e Instagram.

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Arnaldo Rafael Borges

Arnaldo Rafael Borges

Com formação em Jornalismo, já viajei bastante por este mundão. Além de morar por um ano na Austrália, conheci países como México, Argentina, Uruguai, Chile e Nova Zelândia e também gosto de compartilhar o que há de mais interessante e inspirador para o viajante.