Histórias contadas de um veleiro | #SAL



Pensar em algo que realmente te faria acordar com mais disposição todos os dias, não importassem as condições do tempo. Compartilhar histórias, momentos e ideias. Sorrir levemente para qualquer pessoa. Inspirá-las. Se este é o equilíbrio que o ser humano almeja, Adriano Plotzki está no caminho certo.
Uniu a paixão pelo mar e a habilidade em produção audiovisual e, no YouTube, criou o canal Hashtag Sal – #SAL -, uma websérie que conta histórias de pessoas que renunciaram à agitação urbana e se mudaram para bem perto do mar em busca do “sentido da vida”.
Adriano conta em episódios lançados a cada Lua Nova as motivações para o desapego, a busca pela qualidade de vida e a realização de sonhos.
Entrevistamos ele, que nos conta como sua vida mudou após este trabalho.
Inspire-se e bons ventos.

Por que o mar e não o continente?
Quando estamos muito próximos de um prédio, só vemos uma porta. Vendo um pouco mais de longe conseguimos enxergá-lo por inteiro. Acho que, quando comecei a ir para o mar e ver pessoas morando por lá, consegui este distanciamento. Quem tem uma vida em um veleiro consegue notar coisas que, para quem mora na cidade, são óbvias para serem notadas. O mar não é o único modo de ter este distanciamento. Viajar para lugares com uma cultura diferente pode ser um exemplo. Não cheguei a escolher o mar, simplesmente parecia óbvio fazer isso, era um deslumbramento que eu tinha (e ainda tenho).

Qual a sua relação com os veleiros e como tomou gosto por velejar?
Eu nasci no interior do Rio Grande do Sul, distante do mar. Na virada de 2010 para 2011, estava nadando com a minha mulher entre veleiros na Ilha Grande. Quando vi uma família fazendo churrasco em um deles decidi que queria poder assar uma carne ali naquele lugar. Depois disso fomos ver se era caro, etc. Então, me surpreendi, pois era possível. Na época tínhamos dois carros e recentemente tinha mudado a minha produtora para uma quadra de distância de onde morava. Vendi um carro e comprei um veleiro, uns dos melhores negócios que já fiz.

"Sempre chegamos até aos entrevistados navegando, o que pode demorar de quinze minutos a oito horas."

“Sempre chegamos até aos entrevistados navegando, o que pode demorar de quinze minutos a oito horas.”

Qual foi a ideia para fazer o #SAL? Foi um pensamento profundo sobre a vida ou a curiosidade sobre alguém que mora num veleiro ou numa ilha?
Fazer o #SAL vem me transformando. É até curioso porque é uma espécie de contrato comigo mesmo. Às vezes, me deparo com situações em que já falei sobre o assunto no programa e lembro que em algum lugar estava gravado como eu deveria agir, já havia pensado sobre aquele tema. A série foi se aprofundando nos temas aos poucos e acho que isso tem que seguir assim. Quando gravei o primeiro episódio tinha uma ideia muito superficial do que significava morar no mar, era mais a curiosidade, realmente. Hoje, ganhou outra dimensão.

Quanto tempo passa no mar para fazer as gravações? Como é a rotina num veleiro?
As gravações geralmente duram cinco dias. Chegamos de São Paulo com equipamentos e mantimentos e dormimos. No outro dia acordo, faço uma checagem visual dos equipamentos do barco, como cabos, estaiamento, ferragens e motor. Tomamos café e saímos para a primeira entrevista. Sempre chegamos até aos entrevistados navegando, o que pode demorar de quinze minutos a oito horas. Depois da entrevista, cozinhamos algo, colocamos as baterias das câmeras para carregar, baixamos as imagens em um notebook e dormimos. No outro dia começa tudo novamente.

Por que os episódios são lançados na Lua Nova?
Quero que a história do #SAL não se limite somente ao vídeo. Quem está no mar precisa observar o céu. A fase da lua tem uma grande influência nas marés, por exemplo. Assim, as pessoas olham um pouco menos para o relógio e mais para o céu.

O que te motiva a buscar histórias destas pessoas que moram tão próximas ao mar?
A perspectiva diferente que elas têm da vida é um dos motivos. Gostava também quando era criança, quando ouvia outras pessoas contando histórias, era um momento mágico, especialmente em acampamentos ou quando ia para o campo. Para mim, o #SAL tem este mesmo clima. As pessoas, infelizmente, pararam um pouco de contar histórias umas para as outras. Já que vamos mesmo ficar com celulares e tablets em nossas mãos, podemos usar eles para ouvir as histórias de outras pessoas e tentar entender elas. Acho que isto é muito importante para criarmos uma sociedade que funcione. Não é deixar todo mundo igual, mas fazer com que a maioria se entenda.

De todos os dias que gravou, tem alguma que se assemelha à sua história de vida?
Acho que consigo ver um pouco de cada um deles em mim. Este amor que o Elio, do Dia #12, tem pelas histórias, o empreendedorismo do Miguel, do Barco Bar, e a vontade de crescer profissionalmente e largar tudo um dia, que foi o que o Aureo fez. É como no movimento antropofágico do Oswald de Andrade. Acho que todos que assistem ao programa deviam fazer o mesmo: “devorar” a história deles, digerir e criar a sua própria, mesmo que fora da água.

Pelas suas conclusões, qual o verdadeiro objetivo destas pessoas que buscam o mar?
Desapego é o principal deles. Simplicidade e uma alma meio nômade são características de todos.

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Quais os maiores problemas enfrentados pelos moradores do mar? Que tipo de incentivo eles precisam?
Existem aqueles problemas que o Brasil inteiro enfrenta, como o preço dos barcos aqui, comparados com qualquer outro lugar do mundo. Porém, talvez, o acesso ao mar esteja maior. Com excessão de alguns lugares no Brasil, quase não há marinas e outras estruturas básicas para a atividade náutica. Portugal tem mais marinas que o Brasil, mesmo tendo uma costa muito menor. Ouvi de um carioca que não há nenhum píer público no Rio de Janeiro. A Marina da Glória, que deveria ser pública, é uma das mais caras da região. Outro problema é a poluição, principalmente nas Capitais. A falta de saneamento deixa a água em péssimas condições, como a da Baía da Guanabara. Por último, há algumas ameaças, como a cobrança de IPVA para embarcações. Você consegue imaginar o Gustavo e a Paloma, do Dia #16, que venderam o seu apartamento para comprar um barco, serem obrigados a pagar 5% do seu patrimônio para o Governo todos os anos?

Já passou por algum apuro no mar?
Nada trágico. No início de janeiro, estava voltando da Ilhabela para Paraty e, no meio do caminho, peguei uma tempestade com muitos raios e mar revolto. Dá um pouco de medo no início, especialmente quando ela começa, pois você não sabe até onde ela vai crescer. É engraçado que, depois que ela começa a acalmar um pouco, mesmo que quase nada, você para e pensa: “bom, não vai ser mais que isso”. Neste momento, às vezes, é até divertido.

"Acho que todos que assistem ao programa deviam fazer o mesmo: “devorar” a história deles, digerir e criar a sua própria, mesmo que fora da água"

“Acho que todos que assistem ao programa deviam fazer o mesmo: “devorar” a história deles, digerir e criar a sua própria, mesmo que fora da água”

O que faz quando não está velejando?
Em São Paulo, tenho uma produtora de filmes, onde atendo agências de publicidade. Em Paraty, quando estou no barco, faço o que faria na minha casa em São Paulo, cozinho, escrevo roteiros, mando orçamentos, enfim… Uma vida normal.

Você consegue se colocar novamente na vida urbana depois de fazer o #SAL?
Eu moro um pouco em São Paulo e um pouco em Paraty. Então estou entre estes dois mundos. Se eu me mudasse para o Rio, acho que poderia fazer tudo morando em um barco. Infelizmente, o meu tipo de trabalho não me permite trabalhar fora do Rio ou São Paulo. A não ser que o #SAL consiga gerar mais receita e eu consiga me dedicar integralmente a ele. Isso seria fantástico.

Conhece pessoas que desistiram de morar num veleiro e voltaram para a vida urbana?
Sim, há vários casos. Há algumas pessoas que vão e voltam várias vezes. Depende muito do momento em que suas vidas estão. Muitas precisam se mudar para cidades onde não há mar ou bons ancoradouros para morar em um veleiro. Viver em um veleiro não é para todo mundo também. Não digo que é melhor ou pior do que em uma casa. Existem pontos negativos e positivos, mas é sempre uma grande experiência.

"Você consegue imaginar o Gustavo e a Paloma do, Dia #16, que venderam o seu apartamento para comprar um barco, serem obrigados a pagar 5% do seu patrimônio para o Governo todos os anos?"

“Você consegue imaginar o Gustavo e a Paloma, do Dia #16, que venderam o seu apartamento para comprar um barco, serem obrigados a pagar 5% do seu patrimônio para o Governo todos os anos?”

No mar, você já escreveu roteiros pelo celular. Como você lida com uma estrutura mínima? Já se acostumou com isso?
O meu barco é pequeno, 25 pés, mas eu tenho eletricidade, fogão com forno, água doce, banheiro… Sempre levo meu notebook. Escrevo o roteiro no celular porque gosto de anotar as idéias assim que surgem, ou no exato momento em que algo está acontecendo. Porém, como escrevo no Notes do IOS, sempre sincroniza com o notebook. Depois, quando chego, organizo as entrevistas em escaletas. Sempre altero e acrescento textos na pós-produção, mas eles ainda têm um “frescor” que só é possível sentir na hora em que gravamos.

Qual a sua relação com o “Brutus”, o seu veleiro?
É comum você ter um certo carinho pelo seu barco, é quase como se ele tivesse personalidade. É interessante a história do nome dele. O primeiro dono tinha um cachorrinho chamado Brutus, que estava um dia em um petshop com uma coleira, foi pular um obstáculo e morreu enforcado. Apesar da história ser trágica, não quis estragar a carinhosa homenagem que o antigo proprietário fez e não troquei o nome do barco quando comprei.

Há a ideia de que velejar é para quem tem muito dinheiro. O que fazer para tornar a vela mais acessível e conhecida?
Sim, há uma distorção muito grade. Alguém pode comprar uma casa ou apartamento na praia por R$ 400 mil. Isso parece algo normal para um grande grupo de pessoas. Ninguém vai chamar você de rico por causa disso, mas se você comprar um veleiro de R$ 300 mil todo mundo fica impressionado. Há um preconceito muito grande, que faz com que as pessoas não acreditem que possam ter um veleiro. Com R$ 100 mil você compra um veleiro usado para passar o fim de semana com a sua mulher e seus dois filhos e a manutenção pode não ser muito mais cara do que a de uma casa. Estamos falando de “casas flutuantes”, que obviamente não custam o preço de um brinquedo, mas se você quiser simplesmente velejar é mais fácil ainda. Um veleiro usado da classe Laser pode custar menos de R$ 2 mil. Uma outra opção muito difundida lá fora e que precisa ficar mais conhecida aqui é o charter, ou aluguel. Em vez de pagar uma pousada para visitar Paraty você pode alugar um veleiro já com o skipper, que pilota o barco para você. Se você quiser, pode começar a velejar amanhã.

"Sinceramente, empresas que tem interesse em ampliar o mercado náutico brasileiro estão perdendo dinheiro em não patrocinar o #SAL, estamos ampliando o mercado para elas."

“Sinceramente, empresas que tem interesse em ampliar o mercado náutico brasileiro estão perdendo dinheiro em não patrocinar o #SAL, estamos ampliando o mercado para elas.”

Quem são os seus parceiros de produção na websérie?
Por enquanto somente eu, a Aline Sena e o Ernani Oliveira, que faz a direção de fotografia. Estamos procurando patrocinadores. Conseguir um mínimo para manter o programa para eu dedicar mais tempo para ele, tenho certeza de que o programa poderia crescer muito mais.

Como o #SAL se mantém? Como você mesmo disse, o quão interessante é o #SAL para os patrocinadores?
O #SAL hoje é mantido pela AiÁ Produtora, a qual sou sócio. Com um patrocínio tenho certeza de que poderíamos crescer muito mais. Hoje, falamos com 27.000 amantes do mar, que tem um envolvimento muito grande no canal. Falamos de uma vida mais simples todos os meses. A cada 119 views temos um comentário, é raro ver isso em um canal do Youtube e estamos crescendo cada vez mais. Acho que o #SAL traz hoje perguntas muito relevantes às pessoas e muitos querem mudar um pouco a forma que vivem para ter uma vida melhor. Empresas que podem oferecer produtos e serviços que ajudam a estas pessoas têm muito a ganhar apoiando o #SAL. Sinceramente, empresas que têm interesse em ampliar o mercado náutico brasileiro estão perdendo dinheiro em não patrocinar o #SAL, estamos ampliando o mercado para elas. Começamos a procurar patrocínio agora, acho que vamos conseguir em breve.

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O que mudou desde o início da produção do #SAL? Há novos planos para agregar à série?
Sim, muita gente tem mandando mensagens perguntando como começar a velejar, etc. Estamos buscando conteúdo e parcerias que ajudem estas pessoas. Uma das coisas que lançaremos é um aplicativo em que uma das funcionalidades será um banco de tripulantes, onde pessoas que queiram velejar podem entrar em contato com velejadores que precisam de tripulação.

O #SAL é muito inspirador. O que você diria para as pessoas que sonham em viver velejando, mas que não têm a iniciativa?
Vou dizer duas coisas bem práticas que elas podem fazer: uma delas é procurar uma represa, rio, baia ou lago mais próximo da sua casa e fazer uma aula de vela. Costuma ser bem barato e é sempre muito divertido. Mesmo que você não queira nunca morar em um barco, vai ser uma experiência fantástica. Outra seria, na próxima vez em que você for passar um fim de semana em uma praia, em vez de ficar em uma pousada faça um charter de veleiro. Por que não?

Hashtag Sal – Dias #24 e #25 Parte 1 – Amyr Klink:
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=FKLxy0uO9d4[/youtube]

Conheça todos os detalhes do projeto #SAL:
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Arnaldo Rafael Borges

Arnaldo Rafael Borges

Com formação em Jornalismo, já viajei bastante por este mundão. Além de morar por um ano na Austrália, conheci países como México, Argentina, Uruguai, Chile e Nova Zelândia e também gosto de compartilhar o que há de mais interessante e inspirador para o viajante.