Trabalhar pesado no exterior pode ajudar a amadurecer profissionalmente?



“Só volte depois de 1000 cafés”. Penso nessa frase emblemática quase todos os dias, desde 2005. Era em uma cafeteria embaixo do prédio da minha escola de inglês na Austrália e ainda lembro do dono me falando isso com um sotaque carregado e um pouco de raiva no tom da voz.

Eu estava quebrado, sem dinheiro, desesperado para ganhar uns trocados e assim poder pagar o aluguel semanal. Seguindo as dicas de amigos, eu havia feito um currículo com muita “experiência”, como lavador de pratos no Copacabana Palace e garçom em algum outro restaurante fictício com nome tipicamente brasileiro. Mesmo tendo acabado a faculdade antes de viajar, era aquela a minha ambição na época, por não ter um inglês fluente e permissão para trabalhar apenas 20 horas por semana.

Nos primeiros meses por lá eu via brasileiros trabalhando em cafeterias, era um salário relativamente bom e decidi tentar a sorte. Tinha saído da aula e me enchi de coragem: “I’m looking for a job”, perguntei. “Você tem experiência?”, retrucou o dono, correndo de um lado pro outro para servir as mesas. Só pude responder um não meio sem jeito, e foi aí que ouvi a frase com a qual começo esse texto.

Amigos especialistas em escalada ganharam uma boa grana lavando os vidros de prédios em Sydney. Foto Trabalhadores no prédio de Shutterstock.

Amigos especialistas em escalada ganharam uma boa grana lavando os vidros de prédios. Foto Limpando o prédio de Shutterstock.

Nesse período, na terra dos cangurus, eu acabei encarando de tudo. Lavei prato, envelopei mala-direta, ajudei a cortar árvores, limpei tanque de navio cargueiro (!) e no fim acabei ficando mais fixo em um bar. Eu adorava aquilo. Ganhava no mínimo 10 dólares por hora, morava a um quarteirão da praia e me divertia muito.

Eu era hard worker, trabalhava forte e pesado porque sabia da necessidade de pagar as contas do meu bolso, além de tentar economizar algum. Mas também porque sabia que era uma forma de crescer, evoluir e ganhar espaço em um ambiente lotado de estrangeiros no mesmo barco que eu.

Mas nesse período ainda passei por outras situações inusitadas. Uma delas foi ter sido demitido por trabalhar bem. Eram dois bares vizinhos, relativamente pequenos, na beira da praia, mas estavam sempre lotados. Eu consegui emprego como lavador de pratos em um deles, trabalhei alguns dias e já tinha ganho muitos shifts (turnos). Fiquei amigo do gerente e até fiz um teste pra virar garçom (e poder ganhar mais, inclusive rachar as gordas gorjetas), mas meu inglês ainda não era bom o bastante.

Pedreiro é um dos trabalhos mais comuns para brasileiros na Austrália. Foto Construção de Shutterstock.

Pedreiro é um dos trabalhos mais comuns para brasileiros na Austrália. Foto Construção de Shutterstock.

Um dia, quando estava na pausa do trabalho jantando atrás do bar, o gerente do bar vizinho se aproximou e perguntou se eu não poderia trabalhar pra ele no dia seguinte. Como eu estava livre, aceitei. Trabalhei todo feliz, achando que poderia, enfim, levantar uma boa grana trabalhando forte em ambos, até quando voltei ao vizinho e não vi mais meu nome no quadro dos shifts. Tinha sido demitido! E depois acabei ficando sem nenhum dos dois. Fui inocente, mesmo por não saber dessa rixa entre eles, mas foi mais uma grande lição.

Se quiser vencer na vida, faça pelo menos 1000 cafés sem que ninguém te obrigue: estude novas línguas; aprenda o máximo que puder, inclusive coisas que não sejam da tua profissão; faça esportes e cultive amizades; trabalhe forte e nunca reclame sem motivo por estar trabalhando – seja grato; faça qualquer tipo de trabalho com o mesmo empenho; leia bastante; não finja ser bom em algo que não saiba fazer, pode ser muito arriscado; tenha humildade para pedir ajuda e aprender corretamente; evolua e não se acomode… jamais!

Você também teve alguma experiência parecida morando fora? Conta pra gente nos comentários!

Abraço e paz,

Michel P. Zylberberg
www.rodandopelomundo.com

Foto do cabeçalho Panorama de Sydney de Shutterstock.

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Michel Zylberberg

Criei o blog em 2006 para compartilhar as minhas andanças pelo mundo, já rodei por mais de 20 países e gosto de incentivar as pessoas a conhecerem o que esse mundão maravilhoso tem a oferecer! Conto com a colaboração de amigos e convidados para poder trazer um conteúdo relevante e interessante, sempre junto com a minha grande paixão - a fotografia.