Pelas Américas de carona e gastando apenas R$ 17 por dia – Mochila de Histórias



Planejamento e intuição para extraírem o máximo de suas experiências. Dois jovens, Vick e Rafa, e o desejo de encontrarem neles mesmos o verdadeiro sentido de suas existências por meio de lugares e pessoas do mundo inteiro. Na mochila deles, muitas histórias!

O desejo de viajar e conhecer lugares estava dentro de mim desde criança, quando via meus avós retornando das suas férias anuais. Primeiro, eu acreditava que precisaria de muito dinheiro para fazer a mesma coisa e que, para isso, necessitaria uma excelente carreira, que remunerasse à altura do meu sonho.

Viajar sempre era a prioridade, eu passava quase um ano sem comprar um único sapato para poder ter as férias garantidas. Com o passar dos anos, fui encontrando pessoas que viajavam com pouco ou nenhum dinheiro. Esses encontros foram iluminando as possibilidades do meu mundo, até que finalmente eu percebi que não precisava passar anos da minha vida trabalhando em lugares que não ajudam a construir o mundo que eu acredito e que não me davam espaço para manifestar a minha essência.

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Foi no meio de uma crise no trabalho que eu conheci o Rafa e uma das coisas que nos aproximou foi o forte gosto por viajar. Em agosto de 2015, depois de viver um mês em uma imersão com muitos estrangeiros, decidi que assim que me formasse, partiria em uma viagem pela América Latina, o que me abriria para abundância do mundo e generosidade e amor existentes dentro de cada pessoa. O Rafa também carregava há muitos anos o sonho de viver fora do Brasil. Já não sentia-se completo executando as atividades no trabalho e, depois de algumas conversas e reflexões individuais, entendemos que esse poderia ser um sonho vivido em conjunto.

A primeira coisa que decidimos foi o formato da viagem. Como eu estava há alguns meses sem trabalhar, a minha reserva financeira não era tão grande e sabíamos que o padrão teria que ser low cost. Pesquisamos todas as alternativas que possibilitariam viagens quase sem usar dinheiro. Daí, decidimos a rota, que seria toda por terra, saindo do Brasil até o México, mas um pouco antes de sair esticamos o plano e agora temos desejo de ir até o Canadá.

Escrever fatos do cotidiano era algo que eu adorava fazer, por isso decidimos criar um Instagram (@mochiladehistorias) e um blog (www.mochiladehistorias.wordpress.com) para contar as nossas histórias e de pessoas que encontrássemos pela caminhada.

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Teve o momento de contar para família. Este foi muito mais difícil pro Rafa, já que a novidade pegou de surpresa seu pai, que não conseguia ver sentido em ele sair da segurança do trabalho, entregar o quarto no bom apartamento que vivia, trancar o MBA que já estava pago, entre outras renúncias. Depois de comunicar os entes amados, começamos a planilhar a rota, lugares que queríamos conhecer, itens que levaríamos na mochila, etc.

Também fizemos a importante reflexão de quais eram os nossos talentos, o que tínhamos para oferecer e que tipo de experiência queríamos ter ao longo da viagem. Essa parte foi um grande desafio, já que ninguém nos ensina a reconhecer o que fazemos bem ou o que nos realiza.

Poderíamos diminuir os nossos talentos a conhecimentos de administração, engenharia e inglês fluente, assim como fazemos com os nossos currículos, mas escolhemos ressaltar o fato de que o Rafa faz cafés da manhã incrivelmente deliciosos, que eu adoro conversar e fazer perguntas às pessoas desconhecidas e que temos um dom dos céus de fazer trocadilhos. Com a viagem, além de conhecer lugares e pessoas incríveis, queríamos trazer a melhor versão de nós mesmos com a maior frequência possível.

Já foram cinco meses de viagem, seis países visitados, muitas caronas e uma média de gastos diários de R$ 17 por pessoa.

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Nós nos estruturamos basicamente assim:

Orçamento:
Saímos com um orçamento individual de R$ 5.000 mais uma reserva de segurança de R$2.000 que não podemos usar, a não ser para voltar ao Brasil num caso de urgência.

A princípio, estabelecemos uma média de despesas diárias de R$ 40 por pessoa, mas logo que começamos a viagem vimos que com esse valor só teríamos quatro meses na estrada e que era uma média super alta. Naturalmente, nossa média individual se estabeleceu em torno de R$ 15 diários. E sempre perseguimos esse número.

Tivemos a sorte de conseguir “fazer” dinheiro na maioria dos países em que passamos, seja vendendo comida na rua, promovendo jantares ou trabalhando em um pub. Todas as entradas colaboram para que o nosso tempo na estrada seja maior. Fizemos uma publicação no blog que detalha isso e também os gastos por país.

Alimentação:
Nós somos loucos por cozinhar e quase sempre preparamos as nossas refeições onde estamos alojados. Raras vezes saímos para comer e nessas horas priorizamos experimentar comidas típicas.
Sempre quando chegamos a uma nova cidade, visitamos vários supermercados e feiras para cotar preços. Às vezes, caminhamos um pouco mais, mas garantimos economia. Pode parecer pouco, mas R$ 5 economizados, por exemplo, representa 1/3 do que cada um gasta por dia, é uma proporção grande.

Também aprendemos a não desprezar alimentos encontrados no chão das feiras e já voltamos pra casa com muita comida boa que seria jogada fora.

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Transporte:
Fazemos a maior parte da viagem de carona. Esta experiência que começamos a ter foi um grande presente. Viajar de carona é divertido, aprendemos muito e nos sentimos muito cuidados pelas pessoas que nos ajudam. É impressionante a generosidade de cada um. Já nos hospedaram, compartilharam comida, histórias bastante pessoais, enfim, é uma experiência linda e que recomendamos.

Nos dias em que não estamos bem, não pegamos carona, pois acreditamos que a nossa vibração deve estar alta para essa experiência. Alguns países que passamos não pegamos carona devido ao baixíssimo preço das passagens ou por sermos alertados de não existir essa cultura no lugar, mas a nossa recomendação é que cada um escute a sua intuição (aquela voz baixinha dentro da gente que ninguém nos ensina a escutar. É super importante na viagem) e experimente a carona onde se sentir seguro, pois geralmente as pessoas que não usam esse meio de transporte vão sempre alertar de algum perigo. O famoso medo do desconhecido.

Hospedagem:
Usamos as redes sociais ao nosso favor e comunicamos nossos amigos de quais lugares precisamos de hospedagem e muitos abrem suas casas para nos receber ou fazem a ponte com algum amigo que, mesmo sem nos conhecer, nos hospedam. Também utilizamos Couchsurfing ou o Workaway (plataforma de troca de algumas horas de trabalho por hospedagem e, às vezes, alimentação). Quando não tem jeito, ficamos em hostel. Essa opção é a que menos gostamos, pois além de gastar dinheiro, não existe espaço para um “compartilhar de vida” mais familiar e comunitário.

Rota e visita a lugares turísticos:
Todas as viajantes que conhecemos antes de partir nos recomendaram a não planejar a viagem “na vírgula”, já que tomaria muito tempo e provavelmente os planos mudariam conforme fôssemos conhecendo pessoas com dicas de muitos lugares. Nós geralmente temos planejado os próximos 30 dias, mas sempre com espaço para mudar de ideia se quisermos.

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Uma das coisas mais difíceis foi aceitar que não visitaríamos todos os lugares lindos que os países têm para nos mostrar. Passamos pelo Uruguai sem visitar Cabo Polônio, não descemos até a Patagônia Argentina, não conhecemos Torres del Paine no Chile e nem fomos até Machu Picchu, no Peru. Esperamos que essa não seja a última viagem das nossas vidas e decidimos fazer escolhas que priorizem experiências que ainda queremos ter.

Não precisou muitos meses para perceber que nesta viagem não nos sentimos como se estivéssemos de férias. É vida normal, com dias felizes e outros nem tanto, mas com constante mudança de paisagem.

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Acima de qualquer formato de viagem, percebemos que para nós o importante é estar livre, que temos o poder de escolha, de ficar ou partir; conhecer o nosso limite de conforto é essencial para minimizar estresse ou despesas desnecessários.

Eu, por exemplo, devido a uma experiência não tão boa, tenho medo de acampar e, dado isso, já nem carregamos barraca com a gente; e o principal: preferimos os encontros com as pessoas a apenas visitar lugares lindos, o mundo é cheio deles, mas cada pessoa é única.

Agora, estamos no Peru e temos uma longa jornada até realizar o sonho de chegar ao Canadá. No caminho, há lugares que planejamos ficar por mais tempo e outros que passaremos rapidamente, porém é certo que encontraremos pessoas inspiradoras em cada um desses destinos.

No dia a dia vemos que o mais importante não são as metas atingidas, mas, sim, o processo percorrido para alcançá-las. Confesso que carregamos dentro de nós um friozinho na barriga pelos encontros que estão por vir e pelas histórias que continuarão enchendo as nossas mochilas.

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Michel Zylberberg

Criei o blog em 2006 para compartilhar as minhas andanças pelo mundo, já rodei por mais de 20 países e gosto de incentivar as pessoas a conhecerem o que esse mundão maravilhoso tem a oferecer! Conto com a colaboração de amigos e convidados para poder trazer um conteúdo relevante e interessante, sempre junto com a minha grande paixão - a fotografia.