Choque cultural – As diferenças entre Brasil e Holanda e as dificuldades de se adaptar a um novo país



Deixar o seu país natal por um novo é sempre um desafio. É se colocar fora da zona de conforto, experienciar e viver a vida por uma nova perspectiva, ver o mundo de um jeito diferente.

A pessoa que entra em uma viagem ou vai viver em outro país, dificilmente volta igual. Se viver em outro país já muda uma pessoa de várias formas, imagine então viver em outro continente.

Eu sou originário da América do Sul, embora esteja vivendo na Holanda por um tempo. E ainda assim, depois de todo esse tempo, ainda existem coisas que eu sinto falta e de vez em quando a inevitável saudade de casa (homesickness) me atinge. Mas o pior dos paradoxos é que eu, pessoalmente, sinto falta da Holanda quando volto ao Brasil. Em outras palavras, os Países Baixos se tornaram um segundo lar para mim de uma forma que, quando eu estou entre os holandeses, eu sinto falta dos brasileiros e quando estou entre os brasileiros, sinto falta dos holandeses. É impossível ficar totalmente satisfeito.

E o choque cultural é o culpado disso. Toda pessoa no mundo possui traços  e individualidades adquiridas por meio da convivência com outras pessoas, da cultura do lugar onde essa pessoa vive. Nós somos moldados por onde vivemos e mesmo cada ser humano sendo único, nós, ainda assim, adquirimos características dos países/cidades/regiões em que passamos parte da vida. Rousseau disse no século XVIII que “o homem é um produto do meio” e essa frase é mais adequada do que nunca aos tempos modernos, nos quais a globalização tornou normal que as pessoas vivam em outros países, em diferentes lugares muito além daqueles onde nasceram, assim ganhando diferentes características e hábitos culturais de todos esses países. Choque cultural nada mais é do que um sentimento similar à ansiedade que alguém vive após passar algum tempo em um lugar diferente do que está acostumado.

Símbolo de Groningen, a Martini Tower.

Símbolo de Groningen, a Martini Tower.

Para Mary Ann Santoro Bellini, italiana PH.D. em Psicologia Clínica, o choque cultural normalmente passa por quatro fases, similar à famosa teoria dos cinco estágios do luto, criada por Elizabeth Klüber Ross. Os quatro estágios começariam com o “Período da Lua de Mel”, quando a pessoa que vai para fora, especialmente trabalhadores ou estudantes, experienciam a fase no qual ele/ela ama tudo da cultura de lá, já que tudo é novo e curioso. E então vem a fase de “Rejeição”, como ela diz (em tradução livre): “Esse estágio é marcado pela crítica, ressentimento e raiva. Quando uma pessoa vai estudar, viver ou trabalhar em um novo país, ele ou ela vai invariavelmente ter dificuldades com a língua, moradia, amigos, trabalho/estudo e entendendo as idiossincrasias da cultura local, geralmente resultando em frustração. O período de Rejeição pode ser causado pela realização de, como um forasteiro na nova cultura. Língua ou desentendidos de rituais culturais fazem que uma tarefa simples possa parecer como um grande desafio”. O terceiro estágio, similar com o terceiro estágio do luto, seria a “Negociação”, quando a pessoa começa a “ler” melhor dicas e rituais sociais e culturais e se sente melhor ajustado. O quarto estágio seria a “Autonomia”, quando a pessoa aceita as diferenças de vez e percebe que pode viver com elas, se sentindo novamente dono de si mesmo. Finalmente vem a Aceitação, quando o indivíduo finalmente abraça a cultura do novo lugar e este se torna um novo lar.

Mas quando você fica mudando de país para país, o choque cultural enlouquece conforme você se torna um misto de diferentes culturas, de modo que diferentes lugares começam a influenciar o seu jeito de viver e de pensar. Você começa a cozinhar de acordo com a cozinha de um país, mas ao mesmo tempo tem visões políticas semelhantes a pessoas de outro país, tudo isso enquanto possui um sotaque e fala típicos de outro lugar. Em outras palavras, a grande bagunça que é, basicamente, um resumo da história da minha vida até agora.

Groningen Vs. Rio de Janeiro

Eu sou um “apátrida”. Nascido no Brasil, vindo de família cubana e polonesa, com parentes vivendo espalhados por todo o mundo. Falando por mim mesmo, eu vivi três vezes na Holanda e mesmo que nenhuma destas vezes tenha sido por muito tempo, ainda assim me trouxe algumas características culturais como, por exemplo, um vício ao tradicional stroopwafel (que me rendeu o ganho de quatro quilos enquanto estava lá). E como um viajante, eu continuo adquirindo características culturais de todos os lugares do mundo, já que em cada país, em cada cidade que eu passo, absorvo novas informações e culturas que vão ficar comigo até minha morte.

Mesmo que essa situação traga uma grande diversidade na vida de alguém, também gera alguns conflitos. Brasil e Holanda não se parecem em nada e Rio de Janeiro e Groningen ou Amsterdam são completamente opostos. Isso traz vantagens e desvantagens de viver em um dos dois países. As pessoas são muito diferentes, a comida é muito diferente, a cultura em geral é diferente. E, mesmo assim, é raro encontrar algum brasileiro que não poderia se acostumar com a vida na Holanda e vice-versa.

Típica comida holandesa, o Hutsput, uma mistura de purê de batatas com legume.

Típica comida holandesa, o hutsput, uma mistura de purê de batatas com legume.

Para começar, eu preciso comparar a culinária dos dois países. E esse ponto vai para a cozinha brasileira. Desculpe-me, Holanda, mas, apesar de hutsput e stroopwaffels serem ótimos, não há nada como um bom pão de queijo ou açaí. As comidas brasileiras eram uma das coisas que eu pessoalmente mais sentia falta enquanto morava nos Países Baixos. Os holandeses também tendem a exagerar um pouco nas pimentas e condimentos de uma forma desnecessária, isto é, botando muito tempero em pratos que não precisavam disso.

Mas essa não é a única diferença acerca de comidas e hábitos alimentares. O horário em que as pessoas se alimentam também muda bastante. Em países latinos é quase inimaginável almoçar antes de uma ou duas da tarde e jantar antes das oito da noite, enquanto isso por outro lado é bem comum no norte europeu. Na Holanda em especial é bem normal jantar as seis da tarde, o que causa uma enorme estranheza em brasileiros. Além disso, latinos, por algum motivo, também tendem a ir para a cama mais tarde e aparentemente dormir menos, dificilmente dormindo antes de meia noite, mesmo em dias de trabalho, enquanto os holandeses normalmente vão dormir antes disso.

E a comida e os hábitos de sono não são as únicas coisas. Apesar de existirem, com certeza, algumas similaridades entre ambos os países, existem bem mais diferenças entre eles. Brasileiros, por exemplo, constantemente não seguem regras ou respeitam autoridades, costumando serem mais egoístas, com o famoso “jeitinho brasileiro” ou a “malandragem”. Em outras palavras, características quase intrínsecas da população que procura sempre conseguir vantagem de tudo e todos. Os holandeses, por suas vezes, procuram respeitar mais as leis, regras, outras pessoas e ter mais empatia. Entretanto, isso, às vezes, gera uma sensação de que os habitantes dos Países Baixos são mais “robotizados”, certinhos, se recusando a fazer pequenas coisas que não afetariam ninguém, apenas porque são “contra as regras”.

Igreja principal no centro da cidade junto da Martini Tower.

Igreja principal no centro da cidade junto da Martini Tower.

A vida amorosa também é diferente. Na verdade, encontros amorosos são completamente diferentes na América Latina e na Europa. Na América Latina em geral as pessoas se beijam bastante, se abraçam bastante e demonstram amor todo o tempo, mesmo entre estranhos. É normal, por exemplo, mesmo entre pessoas mais jovens, sair a noite e beijar duas ou três pessoas diferentes em uma festa, enquanto na Europa isso é relativamente incomum e normalmente um casal demora a se formar, parece que as pessoas nos países latinos são menos envergonhados de mostrar amor e carinho pelas outras pessoas. Existem muitas, muitas outras diferenças que, embora pequenas, depois de um longo tempo em outro país, começam a fazer a diferença.

As diferenças se complementam

Em um mundo perfeito uma pessoa viveria onde quisesse, quando quisesse, como quisesse. Mas o mundo está longe de ser perfeito e mesmo que algumas vezes alguém viva onde quiser, ele/ela muito provavelmente sentirá falta de outros lugares, outras culturas. Nós somos um produto de onde fomos criados, é difícil fugir disso, um ambiente onde nós crescemos sempre terá um impacto na nossa cultura, no modo que vemos o mundo. E se alguma pessoa viaja muito ou vive em diferentes lugares e sociedades, provavelmente ela adquirirá características desses lugares.

Tem quase uma década que eu venho revezando entre Brasil e Holanda. Isso, por um lado, me fez me sentir em casa em ambos os países mas ao mesmo tempo me fez sentir falta de um quando estou vivendo no outro. Não demorou muito até que eu começasse a ter características dos dois, das duas culturas, já que somos um produto da sociedade em que estamos inseridos.

Parque principal da cidade de Groningen, Noorderplantsoen, e eu no inverno.

Parque principal da cidade de Groningen, Noorderplantsoen, e eu no inverno.

Sobre o autor
Sergio Menezes, cozinheiro nas horas vagas, aspirante a escritor (trabalhando no meu primeiro livro), jornalista, fazendo segunda graduação em publicidade e futuramente mestrado em literatura. Sonho em abrir um bar algum dia, estudo umas línguas aí (digo que falo holandês fluente para impressionar as pessoas, mas é mentira), revezando ente Brasil e Holanda. Mochileiro solitário, com mais de 40 países no currículo viajados sozinho. Minha página: Sergio Schargel no Facebook, de poesias e fotos de viagem.

Fotos: arquivo pessoal

Fontes:
https://www.squaremouth.com/travel-advice/the-four-stages-of-culture-shock/
– O Contrato Social – Russeau – Edição Globo 2007.

http://jblm.com.br/homem-produto-do-meio-produto-dos-homens/

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Arnaldo Rafael Borges

Arnaldo Rafael Borges

Com formação em Jornalismo, já viajei bastante por este mundão. Além de morar por um ano na Austrália, conheci países como México, Argentina, Uruguai, Chile e Nova Zelândia e também gosto de compartilhar o que há de mais interessante e inspirador para o viajante.
  • Gustavo Woltmann

    São coisas bem curiosas. Achei o prato da foto semelhante a salada de maionese, típicas dos churrascos de domingo.

    • Michel Passos

      Verdade Gustavo, esse purê de batatas com legumes da foto lembra muito a nossa maionese dos churrasco. Eita saudade desses churrascos de domingo, tinha sempre lá em casa :) Abraço e obrigado pela visita, Michel

  • Analuiza (Espiando Pelo Mundo)

    oi Sergio… se, cada vez que viajo, volto diferente e percebo que hoje, depois de perambular aqui e acolá, eu sou uma pessoa diferente, que absorveu certos estrangeirismos como se fossem seus, fico imaginando o impacto que não deve ser viver, habitar em outro país. Penso que deve ser uma experiência forte e interessante: com todos os seus prós e contra. Já fui à Holanda, como turista e gostei do país, mas claro que foi um contato absolutamente superficial. Uma amiga que morou um ano não conseguiu se adaptar as diferenças e voltou. Gostei muito do texto. Parabéns! Ana