Rodando pela Índia – O diário de uma experiência única

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Milão 14/02 – 9:19

Essa viagem para a Índia é uma mistura entre as páginas brancas desse diário e a escuridão do céu ao partir de casa com o mochilão nas costas. O preto obscuro construído com tantas recomendações e alertas de amigos, sites e blogs: cuidado com isso, não beba aquilo, limpe as mãos, não dê dinheiro… uma lista que parece infinita, já que há 8 anos (em 2014) moro em uma bolha de segurança e comodidade chamada Suíça.

O branco vazio da sensação de que não posso me fechar em preconceitos e a – dura – realidade na qual estou prestes a desembarcar. Não quero tons de cinza, quero cada cor com seus gradientes e contrastes. Quero provar todas as cores entre o branco e o preto, me deixar levar pela tempestade de sentimentos e sensações que bombardeiam todos que passaram por essa terra sagrada. E, em muitos sentidos, abandonada.

Levo no coração a saudade da família e na bagagem a certeza de que a máxima “uma viagem que mudará a sua vida” seja realmente uma verdade absoluta.

NOTA: Um detalhe importante, como citado no primeiro parágrafo, é que ouvi muitos relatos de pessoas que passaram mal com comidas, inclusive o amigo que viajou comigo. Pela situação muitas vezes precária de higiene, o meu conselho é procurar um médico de confiança antes de partir. É sempre melhor prevenir, para não ter que remediar em um país tão “complexo”, levando alguns remédios na viagem e até mesmo tomando as vacinas indicadas. Lembre-se também de fazer um Seguro Viagem!

Abu Dhabi 14/02 – 21:00

É incrível pensar como o mundo ficou tão pequeno e acessível. Com apenas algumas horas de voo, cá estou eu sentado no aeroporto de Abu Dhabi, pertinho de Dubai. Não gosto de escalas, mas nessa rápida parada pude sentir o ar quente do deserto árabe e perceber de perto um verdadeiro desfile de culturas, costumes e religiões. Vi até alguns brasileiros, mas não deixa de ser algo comum na grande maioria dos destinos pelos quais passei.

A diversidade não fica clara apenas nas mulheres e suas burcas, mas também nos sheiks e uma infinidade de “figuras”. Sinto-me sortudo por ter nascido no Brasil que, apesar dos pesares, é um país onde a mistura é algo que vem da raiz. Temos muitos problemas, mas ver mulheres completamente cobertas de preto me faz sentir o peso da opressão e as distorções religiosas. Ainda assim não cabe a mim julgar. Não sou do tipo que discute política e religião. E futebol? Bom, aí eu ainda arrisco meus palpites.

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Nova Deli 15/02 – 5:00

Viagem tranquila, mas ainda não cheguei ao destino. Depois de fazer amizade com um grupo de brasileiros Hare Krishna no avião, preciso esperar mais algumas horas pelo amigo fotógrafo italiano companheiro de aventura.

O belo aeroporto de Deli me surpreendeu positivamente, muito limpo e organizado, ao contrário de tudo que tinha ouvido sobre o país em geral. Mas como uma amiga indiana tinha avisado que alguém nos esperaria no desembarque para nos levar até à estação de trem, caí na bobeira de sair do aeroporto para procurar o motorista. Li vários nomes nas plaquinhas, mas nada do meu. Para evitar a fria madrugada do inverno indiano logo tentei voltar para dentro do aeroporto, mas os guardas armados e com cara de poucos amigos impediam a entrada de todos, inclusive outros turistas arrependidos de terem cometido o mesmo erro inocente. É uma política (estranha) de segurança, posso até entender, mas nem tentando explicar e mostrando a passagem o guarda mudou de ideia. Nunca imaginei uma Índia fria e úmida, mas espero que esta tenha sido a primeira e última vez na qual o país de Gandhi fecha as suas portas para mim. Um pouco mais de paciência e estaremos no trem para Kanpur, cidade mais ao sul da Índia.

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Varanasi – Foto Michel Zylberberg

Entre Deli e Kanpur 15/02 – 14:18

Nunca imaginei viajar em um trem indiano, mas nesse momento estou aqui, misturando o barulho de metal remexido e o cheiro inconfundível do país com o turbilhão de sensações que me bombardearam em apenas poucas horas da minha chegada.

Sempre tive algumas manias que acabaram se acentuando e direi, até mesmo, se consolidando nesses últimos anos: a paranoia com qualquer tipo de barulho, lugares lotados e gente que invade meu espaço (me toca, por exemplo). Um exemplo clássico? Não consigo dormir com barulho de relógio de parede, o tictac incessante entra no meu cérebro até o ponto de eu levantar e tirar as pilhas para depois voltar ao sono tranquilo e sereno. Claro que foi só um pequeno exemplo, já que nessa paranoia entram praticamente todos os outros tipos de barulho.

Cresci numa cidadezinha muito tranquila de Minas Gerais, mas vai saber porque cargas d’água minha mãe colocava um ventilador que mais parecia uma turbina de avião para que eu e meus irmãos pudéssemos pegar no sono. Com o passar dos anos a turbina foi aposentada, mas acabei resgatando-a e tirando a poeira alguns anos depois, após intermináveis noites de insônia durante a faculdade em São Paulo. Morei num sobrado na Lapa, “estrategicamente” localizado numa avenida das mais movimentadas, com oficina de carro na frente, ponto de ônibus do lado, bares e restaurantes barulhentos por todos os lados e um posto de gasolina pra fechar a conta. Resumindo? Um inferno astral. E pensar que em Minas eram os grilos fora da janela a perturbar meu sono. Mas a minha sábia mãe já havia mostrado o caminho das pedras… ou, pelo menos, como finalmente dormir como uma rocha: combatendo barulho com mais barulho. Tudo isso acabou quando fui morar na Suíça, onde a paz reina absoluta e até os grilos hibernam no inverno.

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Foto: Michel Zylberberg

Sempre fui um cara sem frescuras, mas o sono leve sempre foi um ponto fraco. É o caso desse exato momento, no qual me encontro viajando de madrugada em um trem em um algum lugar remoto da Índia. A classe é a penúltima das piores. Brincando com a sagrada sabedoria mineira: “A menos pior de boa”. Sou masoquista mesmo quando o assunto é viagens. Nunca gostei de remédios pra dormir e ficar grogue aqui pode representar perder todas as bagagens. Mas vários indianos roncando (e alto, a pimenta deve ser o ingrediente perfeito pra esse efeito colateral muito comum por aqui), a luz acesa e o barulhão do trem – que parece mais dos tempos coloniais – me fazem voltar aos tempos do (nada saudoso) velho apartamento na terra da garoa. Pelo menos lá eu podia ligar a minha turbina – mesmo durante o inverno.

Já não bastasse o ritmo alucinante das buzinas e o caos urbano durante o dia por aqui, o jeito é tapar os ouvidos (não viajo sem um protetor auricular dos bons) ou ouvir música. Como Shiva e Ganesh pelo jeito não vão tanto com a minha cara, não encontro meu fone e nem posso tapar os ouvidos por medo de mexerem (ok, roubarem) as minhas coisas. Toda noite aqui é um novo desafio na arte de contar carneirinhos… ou roncos incessantes. Por sorte não preciso de muitas horas de sono pra ficar bem, mas devo assumir que nesse sentido os grilos congelados da Suíça fazem muita falta. Ou a boa e velha turbina, claro.

Varanasi-Foto Michel_Zylberberg

Varanasi – Foto Michel Zylberberg

Kanpur 17/02 – 2:00

Paciência, palavra obrigatória no dicionário de quem viaja. Foram horas intermináveis de espera, depois mais algumas outras… esse é o mantra que domina em um país tão grande e “maluco” como a Índia. As horas de trem entre Deli e Kanpur separaram dois mundos parecidos: pobreza, trânsito caótico – e como trânsito entendo carros, caminhões, motos, tuktuks, bicicletas, pedestres, charretes, cachorros, porcos, vacas sagradas e tudo mais que se mova… Tudo isto somado a estradas esburacadas ou nem ao menos construídas. E na soma ainda entra o ritmo frenético e psicodélico das buzinas. São tantas e tão incessantes que parecem um som único.

Agora, pegue o resultado das somas e multiplique pela total falta de regras e leis de trânsito: sinal vermelho é enfeite, ultrapassar pela direita ou esquerda é igual, muita gente vai na contra-mão e ninguém usa espelho retrovisor (a maioria dos veículos não tem ou estão virados para o motorista). A frase na traseira de quase todos os caminhões é quase sempre e a mesma: “buzine, por favor”. E também “à noite use luz alta”. Vale a lei dos mais fortes, mais velozes e mais corajosos. E, apesar dos pesares – e dos muitos sustos – ainda assim não vi nenhum acidente desde que chegamos. Espero que continue assim!

Kanpur 17/02 – 2:30

Existem lugares que têm cadeira cativa nos sonhos de muitas pessoas e nos meus sempre esteve o Taj Mahal. A Índia em geral sempre me atraiu, mas a maior obra arquitetônica erguida em nome do amor em toda a história era um destino obrigatório. Acordamos cedinho e pegamos um táxi de Kanpur até Agra. Nada menos do que 7 horas de viagem – e um motorista que quase dormiu algumas vezes – até chegarmos ao estacionamento do imponente complexo que circunda o Taj Mahal.

Mas entrar e ver tanta beleza faz passar qualquer cansaço, torcicolo ou aquela desconfiança que envolve destinos muito badalados. É realmente um lugar fantástico, incrível, alucinante! Mesmo não indo nos melhores horários – de manhãzinha e no fim da tarde – quando o mármore branco muda de cor – demos sorte com o clima e tirei muitas fotos. Existem outras belas construções e tudo é preservado muito bem. A segurança é uma das poucas coisas que vi funcionar bem na Índia, mas vale tudo quando a questão é proteger tamanha beleza e a infinidade de turistas que visita esse “singelo” presente do imperador Shah Jahan para sua amada Aryumand Banu Begam, carinhosamente chamada de Mumtaz Mahal (“A jóia do palácio”). Já imagino muitos de vocês cantarolando a música “Taj Mahal” do Jorge Ben :)

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Varanasi – Foto Michel Zylberberg

Nova Deli 23/02 – 10:00

O vazio do diário é justificado pela intensidade das viagens e poderia ser representado graficamente pelo turbilhão de cores e contrastes que vi durante os meus dias aqui na Índia. Um lugar cheio de vida, caos, buzinas, mercados, sorrisos, esperanças, devoções, sofrimentos, crenças, ritos, simplicidade, honestidade, malandragem… e cheiros. De todos os tipos, do fedor das ruas, poluição, fumaça de lixo queimado ou até mesmo da cremação de corpos a céu aberto, o perfume sufocante dos mercados, dos chás e frituras pelas estradas, dos pratos apimentados e pães feitos na hora. A Índia que vi é como o tráfego maluco das ruas e a tranquilidade pacata de estradinhas menores. A espiritualidade está sempre presente, mesmo que muitas vezes vire uma forma de ganhar uns trocados.

Mas a cultura é mais forte do que a invasão de turistas com suas câmeras e outros em busca de algo que o mundo moderno não consegue preencher. A Índia que vi tem uma complexa atitude em relação às mulheres e ao casamento. Suas ruas abrigam mendigos, doentes, festas de casamento, brincadeiras de criança, cricket, pipas e milhões de vidas que seguem sempre avante, sem muitos questionamentos sobre o futuro. Uma luta constante entre riquezas hereditárias e pobrezas aprisionadoras. A Índia que vi é um país de amigos sinceros e pessoas simples que te tratam como parte da família. E, para mim, é um orgulho ter sido abraçado por essa grande família. Namastê.

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Varanasi – Foto: Michel Zylberberg

Nova Deli 24/02

Logo após a decolagem noturna vejo da janela as luzes da Índia ficando sempre menores. É uma sensação forte partir de um lugar realmente único no mundo. Foram apenas dez, porém intensos dias, com quatro cidades e muitas horas de viagem num roteiro que se conclui sem nenhum tipo de problema. Novos amigos, cenas marcantes, choques culturais e uma infinidade de fotos que serão o legado e o verdadeiro diário dessa experiência inesquecível.

Entre os registros, a visita ao mais famoso templo do amor – Taj Mahal -, um belo casamento tradicional, os contrastes enevoados de Varanasi, os encantos de ruas escondidas com pessoas simples e espontâneas, o paladar apimentado e saboroso de cada prato, o ritmo incessante e caótico dos mercados, as estradas muitas vezes precárias e sem leis de trânsito, as crianças que tentam vender algo ou apenas pedir dinheiro e uma infinidade de coisas que ficarão grudadas na minha alma como a poeira e a fumaça na minha pele.

Deixo para trás também novos amigos, pessoas que abriram as portas de suas casas, me fizeram sentir parte de suas famílias (algo raro de acontecer na Europa) e que fizeram questão de oferecer o melhor que podiam, mostrando com orgulho a região e a realidade onde vivem. Revelaram lugares que passariam despercebidos, com pessoas que faziam questão de serem fotografadas em um cenário que para eles provavelmente será uma realidade imutável.

Foto_Fulvio_Pettinato

Foto Fulvio Pettinato

Volto para os lamentos constantes de pessoas que quase sempre têm tudo mas querem mais, cheias e vazias ao mesmo tempo. Não quero ser mais um coração petrificado, chorando de barriga cheia tudo o que temos e que eles apenas sonham em ter. Comodidades da vida moderna que para nós parecem normais, mas que por lá não encontrei.

Vejo a vida de hoje como uma questão de busca: por uma qualidade de vida melhor, por mais dinheiro, mais beleza, mais poder, mais reconhecimento… Mas são poucos os que buscam realmente algo mais etéreo, imaterial. Eu já tinha esse conceito na minha caminhada da vida e aprendi ainda mais depois dessa viagem; a verdadeira busca que deveria mover o mundo, pela felicidade nas pequenas coisas. Compartilhe mais, aprenda a ser feliz com menos. Quero buscar o mesmo sorriso espontâneo e liberatório de um garotinho indiano soltando pipa no telhado durante o mágico pôr do sol indiano.

Termino esse longo post com um trecho de uma música de Eddie Vedder chamada “Society” (em português, Sociedade):

“Quando você ganha mais do que tem
Você acha que precisa
Mas enquanto não ganhar tudo
Você não será livre”

Os créditos de quase todas as fotos do post são de Michel Passos Zylberberg, que também é o autor deste post. Um agradecimento especial ao meu grande e talentoso amigo, companheiro de aventuras, Fulvio Pettinato.

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Michel Zylberberg

Criei o blog em 2006 para compartilhar as minhas andanças pelo mundo, já rodei por mais de 20 países e gosto de incentivar as pessoas a conhecerem o que esse mundão maravilhoso tem a oferecer! Conto com a colaboração de amigos e convidados para poder trazer um conteúdo relevante e interessante, sempre junto com a minha grande paixão - a fotografia.