O Afeganistão como você não viu [colaboração especial Mundo Por Terra]



Ok, é “textão”, mas, amigos, que texto, que fotos…!!! É como se sentir lá, com eles, explorando, trilhando. Os amigos Roy e Michelle cederam gentilmente esta experiência que passaram pelo centro da Ásia, uma imersão numa região de belezas naturais únicas e com um povo hospitaleiro.

Em maio de 2008, nós cruzamos o Paquistão vindos da Índia sentido Irã. Por este ser um país que faz fronteira com o Afeganistão, quando estivemos próximos às terras afegãs, achamos que fomos mordidos pelo bichinho do “quero mais” e ficamos muito tentados em saber sobre a vida naquele país. Nosso contato foi pequeno na oportunidade, apenas vendo suas montanhas a cerca de 30km de distância, mas o fato a seguir nos provocou ainda mais: era noite na cidade paquistanesa Quetta e enquanto jantávamos com alguns viajantes, do nada, dois caças sobrevoaram nossas cabeças sentido norte, que de tão baixos, fizeram tremer o chão. Boquiabertos perguntamos: – o que foi isso? Nossos amigos responderam: – aviões militares americanos indo bombardear o Afeganistão. Quase caímos duros.

Guerras não nos fascinam, muito pelo contrário, mas temos dois corações de viajante que inexplicavelmente o quanto mais vêm, mais querem ver. Nós somos atraídos principalmente por lugares remotos, menos turísticos, aqueles que para saber sobre eles, só mesmo indo lá. Nosso desejo era ver de perto como era o dia a dia deste intrigante país. Queríamos ver as pessoas e, se mesmo em meio a instabilidade, haveria uma vida descente. As crianças estariam indo para a escola? Onde moram? Do que vivem? Como são? E muito mais.

O tempo passou e seis anos mais tarde, quando juntávamos informações para definir o trajeto de nossa segunda viagem de volta ao mundo de carro, descobrimos que um pedacinho do Afeganistão estava seguro e possível de visitar. Nossos olhos brilharam com a descoberta, mas mantivemos o sonho em segredo, pois sabíamos que ele poderia gerar polêmica. Combinamos que em viagem, quando chegássemos na Ásia Central, se a segurança fosse mesmo satisfatória, iríamos para o Afeganistão.

Uma viagem de volta ao mundo é longa – a nossa durará três anos no total –, então no começo foi fácil conviver com esse desafio, pois distante como ainda estava, nem tirava muito o nosso sono. Mas o tempo foi passando e as pesquisas tiveram que se intensificar. Não podemos mentir que quando líamos ou conversávamos com pessoas mais experientes no assunto ficávamos apreensivos. Basta olhar as notícias internacionais para entender o motivo. Hoje os talibãs criaram força novamente, que praticamente se equivale a do governo. Também não há mais tropas estrangeiras agindo no país. A capital Cabul e mais algumas cidades principais são fortemente protegidas pelo exército nacional, mas os acessos entre elas, ou seja, as estradas e montanhas, estão tomadas pelos talibãs, além de que o sul do país está excessivamente perigoso. E os alvos somos nós, estrangeiros, assim como funcionários do governo. Lemos um depoimento na internet de um talibã que dizia que se estrangeiros viessem ao Afeganistão, melhor que estivessem muito bem escoltados. Um embaixador afegão falou a um amigo que solicitou o visto afegão que mais de cem estrangeiros estavam sequestrados em seu país naquele momento. Nós somos fortes trunfos nas mãos dos talibãs e somos usados na mídia para pressionar seu governo e países inimigos.

O lugar que iríamos visitar se concentra num braço de terra situado no nordeste do país que se estende 350km até a China, tendo ao norte o Tadjiquistão e ao Sul o Paquistão. Vendo no mapa, fica mais fácil de entender. O lugar estaria seguro, pois de tão remoto e de difícil acesso, não há muito o que interessa aos guerrilheiros. Ele é, porem, uma possível rota de tráfico de ópio com a China. O Afeganistão é o maior produtor mundial dessa droga, cujo tráfego mantem financeiramente o grupo talibã.

O nosso plano era assim: entraríamos no Tadjiquistão vindos do Quirguistão e dirigiríamos a Rodovia Pamir pelo Vale Wakhan até Khorog, onde solicitaríamos o visto afegão. Lá deixaríamos nosso carro e seguiríamos com transporte público para o Afeganistão pela fronteira Eshkashin e continuaríamos de taxi até Sarhad, onde a estrada termina no Vale Wakhan. Partiríamos então para uma caminhada de 8 a 10 dias (ida e volta) para conhecermos o povo quirguiz que vive na região Pamir Pequena, as margens do lago Chaqmaqtin. Os quirguiz do Afeganistão são um dos povos mais isolados deste planeta.

O que nos ocorreu foi similar ao planejado, mas com alguns detalhes extras que jamais imaginaríamos que pudessem acontecer. Entramos no Tadjiquistão, chegamos no vale Wakhan e de repente, ali do outro lado do rio, na distância de um arremesso de pedra, estava o Afeganistão. Lindo, maravilhoso o vale Wakhan, tanto no lado tadjique quanto afegão. Há quem diga que é uma das rodovias mais bonitas do mundo. Lá encontram-se as cordilheiras Pamir e Hindu-Kush. Um vale profundo rodeado por montanhas com quase sete mil metros de altitude. Cortando o vale e demarcando a fronteira corre o rio Pamir, que após juntar-se com o rio Wakhan, que vem de onde queríamos ir no Afeganistão, transforma-se no rio Panj. O lado tadjique do vale é mais desenvolvido, mas mesmo assim o povo ainda vive de uma forma rudimentar, usando a força animal para a agricultura. Eles são, porem, muito carismáticos. Não nos lembramos de termos acenado nossas mãos tantas vezes em outro lugar do mundo. Num dos dias por aquela estrada fomos parados por um tadjique e convidados para almoçarmos com ele e seus companheiros de lavoura, no meio da colheita de trigo. A comida foi preparada e trazida pela esposa de um dos trabalhadores e posta sobre uma toalha no chão e nós sentamos em sacos de trigo ao redor. Comemos plov, arroz com cenoura e carne, todos da mesma panela, cada um com sua colher. E é claro, regado de muito chá.

Mas nem tamanha hospitalidade tadjique nos fazia esquecer do outro lado do rio, ainda mais quando começamos a ver os primeiros afegãos de longe. Foi emocionante. “Veja, existem pessoas vivendo lá!”, comentamos entre nós. Isso é óbvio!, que pensamento tolo o nosso, mas é que estávamos realmente fascinados. Será que costumes e tradições cruzam aquele rio de um lado para outro? Teve um momento do percurso que ficamos com os corações partidos. No lado tadjique, próximo ao rio, crianças e mulheres cuidavam de seus animais e faziam algazarra, ao passo que na margem afegã apenas dois meninos assistiam o movimento em silêncio, sentados na barranca do rio, a meros dez metros de distância. Talvez sonhavam estar ali, talvez queriam se tornar amigos. Mas tão perto, tão longe. Outro lado, outro mundo. Não importava a pequena distância, nem se o rio era transponível ou não. Era a fronteira entre Tadjiquistão e Afeganistão e a patrulha de ambos países andava fortemente armada. É um mundo interessante esse o nosso, pois somos nós, seres humanos, que colocamos barreiras para nós mesmos. Não foi Deus ou a natureza. Se há um ponto positivo nisso é que uma fronteira protege a cultura de um povo, não temos dúvida e a prova disso é a sequencia desse texto.

 

Chegou então um dia decisivo em nosso sonho. Fomos para o Consulado Geral da República Islâmica do Afeganistão em Khorog, Tadjiquistão, para ouvir da boca das pessoas mais preparadas para falar sobre a segurança em seu país. “O vale Wakhan no Afeganistão está livre de talibãs”, pronto, era o que queríamos ouvir, bastou para nós. Entregamos nossos passaportes para fazer o visto, a atendente perguntou sobre nossas intenções, nos pediu uns minutos e voltou falando que não nos daria o visto. O motivo, confessou, foi por não haver registros e nem informações sobre visto para brasileiros. Ela não sabia quanto nos cobrar. Que banho de água fria. Por um instante enxergamos nosso sonho se desintegrar. Mas não desistimos tão rápido. A Michelle logo falou, com a cara de coitada: “- nós carregamos esse sonho conosco desde que saímos de casa, há mais de dois anos!” Ela olhou para nós, talvez se comoveu um pouco e falou baixinho que se não falássemos para ninguém, iria nos cobrar o mesmo que a maioria das outras nacionalidades e o visto ficaria pronto ainda naquela manhã. Nossa alegria só foi maior quando ela nos autorizou a cruzar a fronteira com nosso próprio carro. Conforme nossas contas, pelo alto custo do transporte público no Afeganistão, devido as péssimas estradas e baixíssimo fluxo de carros, poderíamos economizar muito, mesmo pagando as taxas extras de aduana. Nosso dia estava ganho!!! Ali na embaixada, por coincidência, conhecemos o inglês Jonny Duncan, que também solicitava seu visto e que fez a mesma cara de coitado para nós, pedindo um metrinho quadrado de espaço no Lobo para ir de carona conosco. Não tivemos como recusar.

O vale Wakhan no Afeganistão possui pouquíssima infraestrutura, por isso estocamos nossa despensa e geladeira antes de sair de Khorog. Dirigimos até Ishkashin, ainda no lado tadjique e cruzamos para Eshkashin, no lado afegão, tendo que cumprir as burocracias aduaneiras e de imigração no meio do caminho. Quando os portões da fronteira se abriram, nossos corações estavam a mil. Entraríamos no Afeganistão, um dos países mais misteriosos do mundo atual e, mesmo sabendo sobre as boas condições de segurança daquele pedaço do país, não tínhamos como não ficar apreensivos pelo que iríamos encontrar do outro lado. Mas tudo correu normalmente e com um sorriso no rosto do oficial afegão. Agora imaginem a admiração das pessoas em Eshkashin quando viram nosso carro subindo a ladeira de chão batido. Pelo tamanho dos seus olhos pareciam que viam uma nave espacial. Mas nós também os olhávamos admirados, pois bastou cruzar a ponte sobre o rio Panj para tudo mudar. Os homens vestiam o que nós apelidamos de pijamões, que são roupas de linho leves e soltas e que combinadas com coletes e paletós os deixavam bem apresentáveis. Na cabeça, noventa por cento deles usavam um chapéu chamado pakol, que mais parece um pão afegão de ponta cabeça. As poucas mulheres que víamos circulando pelo bazar usavam burcas azuis com um véu em frente aos olhos para que nada delas aparecesse em público. Pela quantidade de pessoas nas ruas, ficava evidente que o comércio é o que impulsiona a economia da cidade.

 

Estacionamos em meio ao bazar e saímos em busca de permissões da polícia e exército que são exigidas no caminho para Sarhad. Como a cidade é pequena, um cidadão que falava inglês veio em nosso encontro e se colocou a nossa disposição. Ele trabalha como guia, então já sabia o que precisávamos. Enquanto as permissões eram feitas, nos deixamos levar pelo movimento da cidade, tiramos fotos e tomamos chá com alguns locais. Nós admirávamos os afegãos, eles admiravam nós. Não adianta, somos diferentes da cabeça aos pés e é exatamente isso que nos traz para esses lugares. São essas diferenças que nós buscamos.

Nesse mesmo dia a tarde iniciamos um árduo deslocamento até Sarhad. O vale foi, ao longo dos milhares de anos, invadido por pedras que desceram das montanhas altas ao redor e a estrada foi aberta por entre elas. Isso sem contar os riachos que descem das montanhas e fazem seu caminho pela estrada e criam valetas, fazendo-nos ter que praticamente parar para ultrapassa-las. Para rodar os 210km levamos dois dias e meio. Talvez seja por isso que ouvimos dizer que no vale Wakhan, sem contar Eshkashin, há apenas quatro carros. As mulas são melhores conduções nesse tipo de terreno.

 

Mas nosso deslocamento foi lento também pelo encontro com as pessoas locais. Ao acenar para eles, recebíamos outro aceno acompanhado de um sorriso tão sincero, que nos comovia. Dava para ver que aquilo vinha do coração e que eram pessoas de uma pureza e inocência sem igual. Com as crianças nos divertíamos e quando pedíamos para tirar uma foto, elas posavam com todo orgulho, mas geralmente ficavam sérias, tipo foto de família de antigamente. As mulheres, assim que saímos de Eshkashin, não se cobriam mais com burcas e usavam apenas um lenço sobre a cabeça. Todas com vestimentas tradicionais e muito coloridas. Os afegãos possuem traços fortes e alguns tem olhos com um tom de verde que não existe no resto do mundo, um verde oliva intenso e marcante. Outros possuíam olhos azuis bem claros. As pessoas de lá são verdadeiramente lindas, mesmo com a pele surrada pelo sol, ar seco, frio e falta de produtos de higiene. A região é carente de praticamente tudo. Numa oportunidade a Michelle foi tomar banho numa fonte de água quente comunitária e uma menina iria lavar seu cabelo com sabão de lavar roupa. Ficou mais do que feliz quando a Michelle lhe emprestou xampu.

Auxílio médico também é escasso. Quando parávamos, os locais aproveitavam para pedir remédios. Faziam gestos de que estavam com dor de cabeça, dor de estômago, dentre outros. Houve um senhor que nos pediu óculos, pois já não enxergava direito. Mas percebemos que ONGs internacionais estão por lá fazendo seu trabalho para melhorar o padrão de vida dessas pessoas. Vimos muitos escolas pelo caminho. O Ministério de Relações Exteriores da Noruega, aproveitando alguns poucos anos de estabilidade no país que ocorreram antes de 2008, desenvolveu junto ao povo local infraestrutura para o turismo, com sinalizações e pousadas, mas infelizmente com a queda do turismo após o reaparecimento dos talibãs isso ficou subutilizado e o povo caiu na descrença. Uma pena. Este ano, para se ter uma ideia, o Vale Wakhan recebeu apenas 100 estrangeiros e no ano passado parece que foi a metade disso. É difícil dizer como as condições de segurança neste lugar ficarão daqui para frente, pois há indícios de que os talibãs estão se aproximando da região.

Sarhad é a última vila do vale. É também onde termina a estrada. Mas está localizada numa planície rodeada por montanhas tão lindas, que se nossa viagem tivesse sido somente até lá, já teria valido a pena. Casas de barro, mulheres e crianças com trajes coloridos, homens circulando com seus animais, agricultura e tudo no meio daquelas montanhas altas e lindas.

Lá nos preparamos para caminhar até o lago Chaqmaqtin (cerca de 160km ida e volta), que fica na região da Pamir Pequena, onde encontraríamos o povo quirguiz, um dos mais isolados geograficamente falando no mundo. Tínhamos que estar preparados, pois pelo menos a metade dos nove dias teríamos que ser autossuficientes com comida e barraca. Contratamos dois burrinhos para carregarem a muamba e com eles veio o seu dono, que guiou os animais e nós até o lago. Seu nome é Kadan, um tipo muito gente fina que parecia ser muito bem quisto nos lugares que passamos. Consequentemente fomos bem recebidos também.

 

Começamos caminhando para cima, subindo, subindo. No primeiro dia partimos de 3.300m ao nível do mar e fomos até 4.235m e descermos novamente para 3.500m. No caminho, além da paisagem de tirar o fôlego, descobrimos que teríamos uma agradável companhia em nossa caminhada. Devido estarmos na estação que antecede o inverno, cruzamos com dezenas de quirguiz viajando em caravanas de iaques em sentido contrário ao nosso para buscarem suas provisões para o inverno como arroz, açúcar, utensílios domésticos, roupas, botas, esquadrias, madeira, etc. Comerciantes afegãos se deslocam para o lago Chaqmaqtin durante o verão para preencherem seus blocos de pedidos junto aos quirguiz e na volta da viagem já trazem os animais (cabras, carneiros e iaques) que pegaram como forma de pagamento, escambo. Os comerciantes voltam para suas cidades e providenciam que as mercadorias compradas sigam de caminhão até Sarhad, onde são armazenadas até o outono, quando os quirguiz vão buscá-las com suas caravanas, similares as caravanas da rota da seda, que aliás, não passavam longe dali. Isso nos fez lembrar das histórias de antigamente contadas por nossos pais, quando quase não haviam carros em São Bento do Sul, nossa cidade natal e o transporte acontecia por carroças ou no lombo de cavalos que levavam três dias para chegar em Joinville, uma cidade com maior infraestrutura. Hoje podemos dizer que vivenciamos um pouquinho desse passado no Afeganistão.

É preciso ressaltar que não há acesso ao lago por estradas e esse é mais um motivo que os deixa tão isolados. Para chegar lá são pelo menos quatro dias a pé. Já para as caravanas de iaques pode ser ainda mais demorado, pois precisam guiar os animais que muitas vezes são desobedientes. Presenciamos isso diversas vezes. Numa delas, um iaque se separou do grupo e cruzou para o outro lado do rio. Seu dono teve que ir busca-lo com seu cavalo e isso atrasou o comboio em pelo menos uma hora. A volta para casa é ainda mais lenta, pois os animais são sobrecarregados e os víamos com a língua de fora nas subidas íngremes.

São diversas caravanas indo e vindo diariamente nessa época do ano e os próprios viajantes montaram uma estrutura de acampamentos pelo caminho. Construíram pequenas casas de pedra equipadas com fogões a lenha para terem onde se abrigar nas noites geladas das montanhas altas. Nessas casas compartilhamos o mesmo teto com wakhis (afegãos da região) e quirguiz e foram experiências marcantes.

 

O terceiro dia foi o mais longo. Subimos, descemos, andamos por planícies e após quase dez horas caminhando, quando já era noite, paramos para pernoitar na pousada de uma pequena comunidade e fomos servidos com arroz e carne de ovelha, que diga-se de passagem, estava saborosíssima. Mas nem sempre tivemos essa sorte. Nem sempre as coisas foram as mil maravilhas. Boa parte das refeições servidas nas pousadas foram puramente arroz branco e pão, com o acompanhamento de chá de leite de iaque. Não é a toa que perdemos alguns quilos. Outros intemperies que tivemos que conviver foram o pó nas trilhas e a fumaça dentro das casas de pedra. A sorte é que o sentido do olfato é o que mais rapidamente nos acostumamos, pois após nove dias sem banho, usando a mesma roupa, dá para imaginar o nosso estado, certo? A Michelle também sofreu com dores de estômago durante alguns dias da caminhada.

O quarto dia era para chegarmos no lago, mas um fato diferente se sucedeu. Parece que em todos esses anos de viagem nós ainda não aprendemos que é importante, ou, algumas vezes, imprescindível levar o passaporte consigo. Nós os deixamos no carro, mas isso foi também sugestão de um senhor em Sarhad, para quem perguntamos se seria necessário leva-los. Para nós, estávamos indo para as montanhas. Acampar. Indo para um dos lugares mais remotos da face da terra. Passaporte para quê? O que não contamos é que aquele lugar fica numa zona de fronteiras sensível de quatro países.

 

E claro que demos de cara com um posto de controle militar na vila de Bazai e de pronto o comandante nos solicitou a carta de permissão que deveríamos ter recebido do comandante de Sarhad. Ai vem mais um problema! O comandante de Sarhad, um ex-talibã por sinal, não possuía as habilidades de ler ou escrever e como desculpa, nos disse que não precisaríamos da importante carta. Vai explicar isso como? Bom, já que não a tínhamos, nos foi solicitado o passaporte. Cadê? Não trouxemos. Como assim? Os oficiais ficaram indignados mas foram educados e estavam procurando uma forma de nos ajudar. Nos levaram para sua barraca, nos serviram chá e pediram para esperarmos. De repente, sem mais nem menos, pediram para sairmos do posto, montarmos nossas barracas em meio a ventania e o frio e esperarmos lá por suas instruções.

Meia hora depois começou um movimento estranho na estação militar. Um soldado corre para cá, outro para lá, veste o uniforme, ajeita tudo e o motivo do tumulto ficou claro para nós somente quando vimos cinco carros militares surgindo no horizonte. Três deles eram gigantes e desconhecidos por nós, de onde saiu muitos soldados. Outro era um Toyota Land Cruiser e o último um Hummer. Os militares devem ter começado com as formalidades entre eles, mas logo um deles, que parecia o chefão, veio em nossa direção. O comandante dos comandantes, como eles nos explicaram. E a história dos passaportes voltou a tona. Quando tentávamos contar o ocorrido ao tal comandante, ele virava as costas para nós e falava alto, como se não quisesse nossas desculpas. Aí veio mais um soldado, mais dois, mais dez e em seguida todos que chegaram naqueles carros. Estávamos rodeados por militares fortemente armados! O guia dos burrinhos, Kadan, estava com os olhos arregalados de medo.

Agora pasmem. Isso não é algo que se vê todos os dias: nem todos os militares eram afegãos. Os afegãos eram a maioria, que vieram nos carros blindados grandes, mas os outros eram chineses (que vieram na Land Cruiser) e tadjiques (que vieram no Hummer). Nós não entendemos nada. Tivéssemos fotografado, mas não deu coragem, o que os chineses não perderam tempo. Tiraram selfies com seus celulares ao lado de nós, quando desmontávamos a barraca, da Michelle de corpo inteiro, de rosto, conversando com um, com outro, sei lá, devem ter tirado mais de 30 fotos. E davam risada! O melhor entendimento que tivemos foi com o comandante do Tadjiquistão, que era um cara muito educado e falava russo. Nós falamos russo pelo menos melhor que dari, a língua afegã, então pudemos nos comunicar melhor e foi nesse momento que a Michelle aproveitou para fazer um drama, falar que aquele era nosso sonho e coisa e tal, para pelo menos comover um pouco os oficiais. Mas a história toda terminou com o comandante geral afegão dando ordens para desmontarmos nossa barraca e voltarmos para Sarhad, de onde viemos. Sem passaportes não estávamos autorizados a seguir em frente.

 

Seu tom de voz fez com que o encontro finalizasse e todos voltaram para o posto de controle. Terminamos de desmontar as barracas e fomos para uma pousada nos abrigar, pois estava fazendo muito frio para passar a noite acampados. Tristes, mas ilesos, tivemos que engolir seco e nos contentar com o que já havíamos visto até ali. Outro dia teríamos que iniciar o longo caminho de volta.

Mas depois que os militares dos três países se foram, o comandante da estação local veio de moto nos visitar. Pediu desculpas pelo acontecido e nos deu o recado que noutro dia cedo podíamos seguir para o lago, mas devíamos voltar no mesmo dia, essa era a condição. Não entendemos muito bem, mas ficou no ar que o comandante geral do Afeganistão, em nossa frente, precisava fazer seu papel de comandante e nos mandou voltar para Sarhad. Mas lá na estação acabou nos dando uma colher de chá e a notícia ficou a cargo do comandante local de nos repassar. Cheguei a dar um abraço nele. Bom, confusão total, mas estávamos autorizados a seguir até o fim. Coisas da vida!!!

O quinto dia de caminhada também foi puxado. Não tínhamos GPS para medirmos a distância, mas ida e volta até o lago devemos ter caminhado quase 30km, tudo acima dos 4.000m de altitude. Nesse dia houve nevasca e muito vento, o que fez a temperatura cair e dificultou ainda mais a caminhada.

 

Quando chegamos no início do lago Chaqmaqtin descobrimos que as comunidades quirguiz espalham-se em toda a sua extensão, que chega a 50km dali sentido a China e como recebemos ordens de voltar para Bazai naquele mesmo dia, não tivemos tempo de seguir adiante. Mas ao nos aproximamos da primeira comunidade, fomos logo convidados por um senhor para entrarmos em sua yurt, onde nos foi servido chá de leite de iaque e pão com nata. Esse gesto hospitaleiro, que é comum na cultura nômade da Ásia Central, depois de tudo o que aconteceu desde que planejávamos chegar ali, foi o melhor presente que recebemos. Sentamos no chão sobre tapetes coloridos e nos sentimos acolhidos por aquela família querida. Eles vestiam-se tradicionalmente, principalmente as mulheres, com vestidos coloridos e muitos adornos. O senhor perguntou ao Kadan se gostaríamos de passar a noite com eles, mas Kadan explicou que não podíamos contando o episódio do passaporte, algo que ele adorava falar para os locais que encontrávamos.

Mas porque o povo quirguiz vive no Afeganistão? Os quirguiz são nômades e desde o século 18 vinham no verão de outros lugares da Ásia Central em busca de melhores pastos para seus animais. Mas seguido da revolução soviética em 1917, algumas centenas de quirguiz assentaram definitivamente no Afeganistão. É também interessante a formação desse braço de 350km, que foi o único trecho que tivemos acesso no país. Trata-se de uma criação com fins políticos do final do século 19, que serviu como buffer ou área neutra entre os impérios rivais Britânico (que envolvia o Paquistão, antes Índia) e Russo (que abrangia o Tadjiquistão). Agora, até quando esse território vai permanecer assim intocado é uma incógnita. O próprio Afeganistão tenta abrir uma fronteira com a China na extremidade do corredor para intensificar o comércio e se isso acontecer, como os chineses adoram construir rodovias, é certo que uma estrada asfaltada irá substituir as trilhas por onde andamos e caminhões farão o trabalho dos iaques.

Nosso caminho de volta foi pelo mesmo percurso que viemos de Sarhad e o fizemos em quatro dias e meio, mas as temperaturas foram bem mais baixas do que na vinda. O Lobo da Estrada, que nos aguardava em Sarhad, nos trouxe para Eshkashin em mais três dias, de onde cruzamos para Ishkashin, no lado tadjique. Saímos do Afeganistão já sentindo saudades desse lugar mágico, com a certeza de que algum dia voltaremos. Ficaremos na torcida para que a segurança volte a ser o que já foi um dia e assim podermos conhecer outros lados do país no futuro.

Confira a galeria abaixo.

Todas as fotos e textos foram cedidos gentilmente por Roy e Michele, nossos agradecimentos especiais a eles e ao Mundo Por Terra.

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Arnaldo Rafael Borges

Arnaldo Rafael Borges

Com formação em Jornalismo, já viajei bastante por este mundão. Além de morar por um ano na Austrália, conheci países como México, Argentina, Uruguai, Chile e Nova Zelândia e também gosto de compartilhar o que há de mais interessante e inspirador para o viajante.