Diário de sobrevivência para pais de primeiro intercâmbio dos filhos



Fazer um intercâmbio é o sonho de todo jovem. Por mais que haja confiança nos filhos, bate uma mistura de insegurança, ansiedade e outros sentimentos nos pais. Não há fórmula certa para lidar com esta situação, afinal, só o tempo irá nos dizer sobre as escolhas feitas, porém saber dicas para encarar a distância e a saudade dos filhos é uma boa oportunidade para enfrentar este período que parece que nunca vai passar. Foi o que a jornalista e escritora Ticiana Werneck fez. Transformou seu aprendizado longe da filha em um livro para pais que se preparam para “sobreviver” ao intercâmbio de um filho.

Colaboração especial de Ticiana Werneck

Minha filha partiu para um intercâmbio na Austrália com quinze anos de idade e voltou com dezesseis. Eu fiquei aqui, roendo as unhas e escrevendo um diário cronológico desde a partida dela até a volta. Assunto não faltou. Para começar, a rotina da minha casa mudou totalmente sem ela. O primeiro almoço com a mesa posta para apenas três pessoas, eu, o pai e o irmão dela, foi um pouco indigesto: era a prova real de que a família encolheu. Enquanto isso, em Adelaide, sul da Austrália, Natália, minha filha, gastava o pouco de inglês que tinha para se fazer entender na nova casa composta por um casal de senhores, já avós.

A adaptação dela com a nova família, escola e cidade foi rápida, já a minha, mais ou menos. Assim como um termômetro durante as quatro estações do ano, minha saudade sofreu oscilações de intensidade. Quando ela partiu, meu coração também se partiu. A impressão é que eu ficaria dez anos sem ver a criatura. Fiquei com os olhos inchados de tanto chorar. Cada ligação era um final de novela das oito. Conhece aquela frase “os contidos que me perdoem, mas eu nasci para ser intensa”? Me resume bem.

Depois de um tempinho, percebi que tudo deste lado de cá do mapa era um reflexo do que rolava do outro lado. Se ela estava tranquila, ocupada com suas tarefas e feliz com a vida, nós também estávamos. Qualquer pequeno percalço, entretanto, já nos deixava alertas de novo. Um dia acordei com uma mensagem dela no WhatsApp: “Mãe, eu estou muito feliz”. Essa frase entrou no meu dia como um raio a clarear tudo e me deixou feliz o dia inteiro. Depois de um tempo, eu ainda estava feliz e o dia nem era grande coisa. Quando a gente está longe há tanto tempo, com tantas dúvidas e saudades, saber que, além de bem, sua filha está feliz é um alento sem tamanho. E cheguei nessa conclusão: se ela está bem, eu estou bem.

Mas não foram só mensagens motivadoras que pipocaram no meu WhatsApp (aliás, santo aplicativo, foi de longe o mais usado por nós na comunicação). Numa manhã, poucos dias antes dela retornar ao Brasil, Natália me acordou com a seguinte mensagem: “Não estou encontrando meu passaporte”. Nem preciso dizer que foi um auê. Depois de uns quinze minutos de mensagens apocalípticas, ela finalmente revelou: “Maoeee. Você caiu na pegadinha do Silvio Santos”. (Intercambista, não repita isso em casa!) A pegadinha tem uma explicação: desde a partida, eu pensava: “Ai, meu Deus, ela vai perder o passaporte na primeira semana”. E pegava muito no pé dela. Mas olha, se tem uma coisa que filho faz bem é surpreender a gente. Surpresa boa, oremos!

Amadurecimento

Mesmo que a gente seja “superprafrentex” (ainda se usa isso?), temos uma tendência ancestral a proteger mais do que seria indicado e a pensar em todos os desdobramentos por eles: e se chover? Leva agasalho! E se pedirem documento? Leva a carteira! E se a gente não está do lado para dar recomendação? ELES SE VIRAM! E se pisarem na bola, vão ter que correr para resolverem SOZINHOS. É nessa hora que algo ali dentro daquela cachola se encaixa e eles começam a pensar nos desdobramentos por si próprios. E isso é crescimento, minha gente!

Sim, minha filha amadureceu nesse um ano, aprendeu inglês e a lidar com dinheiro, a se virar nas situações que surgiram e mudou o que é possível ser mudado em um ano. Ela não é outra pessoa. Ela continua a mesma, só que um tanto “maior” e mais desenrolada.

Esse diário virou um livro. Nele, eu trago também um depoimento da Natália. Foi muito bacana ouvir dela um balanço geral da experiência: “No início, eram tantas mudanças que, quando parava para pensar em tudo que ‘deixei’ no Brasil para viver longe da minha zona de conforto, me batia, ao mesmo tempo, orgulho e frio na barriga. Devo confessar, entretanto, que gostei da sensação de criar novos costumes, me adaptar a uma rotina diferente, mudar meus gostos e me expor a novas oportunidades”. Palavras dela.

O pai, Paulo Henrique, também deu seu depoimento para o livro: “Ficar longe da minha filha durante um ano foi difícil, mas confesso que achei que seria pior. A verdade é que ela não nos deu trabalho e nos surpreendeu ao demonstrar iniciativa para resolver as exigências que surgiram. Como pai, minha preocupação era, daqui do Brasil, acompanhar minimamente sua rotina, dar conselhos práticos e prover tudo o que ela pudesse vir a precisar. Ficava apreensivo se minha filha iria se adaptar à nova família, se conseguiria controlar o dinheiro, se iria desempenhar-se bem na escola e se os outros alunos a receberiam bem. Torci para que ela fizesse boas amizades e se relacionasse com pessoas com valores legais”.

Dicas

No final do livro, trago dicas “para os pais que ficam e os filhos que partem”, que vão desde coisas práticas, como bagagem (a da Natália voltou muito maior do que foi, o que a obrigou a pagar pelo excesso), a outras mais elaboradas, como se encaixar na dinâmica da nova família.

O intercambista não é um convidado da casa, portanto é importante logo de cara entender as regras da família e as incumbências de cada um. A comunicação clara vai evitar qualquer mal-estar desnecessário. Isso envolve desde as tarefas domésticas até as regras de convivência e rotina. Na hora da volta para casa, depois de toda a jornada, uma ideia bacana é o estudante comprar uma bandeira do país e pedir aos amigos e professores para assinarem. Uma bela lembrança para marcar a experiência. Outra dica legal é organizar uma festa de boas-vindas, com familiares e amigos, o que é prático para o intercambista que retorna, afinal ele revê todo mundo em uma tacada só.

Bom, deu para perceber que esse ano foi cheio de emoção e aprendizado. Conto tudo com franqueza e bom-humor, na esperança de preencher alguns buraquinhos que a ausência deixou nos pais de primeiro intercâmbio.

Você encontra o e-book “Diário de uma mãe de intercambista” clicando aqui.

Ticiana Werneck é jornalista, mora em São Paulo e também é autora do livro de contos “Trilhas para andar descalça” (Moinhos, 2018).

Fotos: arquivo pessoal

Curta e siga:
Arnaldo Rafael Borges

Arnaldo Rafael Borges

Com formação em Jornalismo, já viajei bastante por este mundão. Além de morar por um ano na Austrália, conheci países como México, Argentina, Uruguai, Chile e Nova Zelândia e também gosto de compartilhar o que há de mais interessante e inspirador para o viajante.