Recebi algumas vezes um e-mail com uma carta escrita por uma suposta holandesa que havia visitado o Brasil. Logo vi que se tratava de uma corrente, ou como dizem, um “hoax” (tipo um trote).
Mas ao ler a carta vi que existiam ali muitas coisas interessantes sobre o nosso país e que realmente não nos valorizamos como deveríamos.
O Rodando Pelo Mundo é um blog sobre variedades, mas acaba sendo em grande parte sobre viagens ao redor do mundo.
Como sou um brasileiro que deixou o país há algum tempo, queria fazer a minha própria carta sobre o nosso Brasil usando como referência tudo que vi até agora:
Uma coisa é absolutamente indiscutível: Brasileiro é o melhor povo do mundo. Falem o que quiserem, argumentem como puderem, mas para mim não existe dúvida alguma de que somos de maneira geral os melhores. Explicações são tantas, e o pior é que estamos cansados de conhecê-las e ignorá-las.
O único desastre natural brasileiro de alto potencial de destruição é a política. E realmente é o que impede de crescermos como poderíamos. Como nos adaptamos a esse mal e cansamos de combatê-lo em vão, conseguimos ainda sim enriquecê-los e ao mesmo tempo sobrevivermos com o pouco que nos resta.
Os políticos querem a ignorância do povo para continuar a controlá-los. Educação falida é muito melhor – para eles. Televisão a preço de banana – ainda melhor. Pobre não tem teto, mas tem TV. Assim pode ver nas novelas uma realidade que nunca será sua. Que nunca será nossa. O desastre natural que nos idiotiza sem percebermos. Que não nos dá escolha, mesmo se travestindo de democracia.
Brasileiro tem fé, é solidário. Ou então tantas igrejas não estariam incrivelmente ricas. Que pessoa em sã consciência doa ao menos 10% do salário todos os meses para uma instituição que vende um lugar no céu ou no paraíso? É a única esperança que resta para grande parte delas. Se o lugar no céu estará realmente disponível e mobiliado quando os fiéis partirem dessa para melhor eu não sei. Mas que a vida dos bispos e afins nessa vida carnal é provavelmente muito melhor do que o paraíso, isso já é bem provável.
Se Cuba vive basicamente do turismo e proíbe a entrada dos americanos, como o Brasil tem índices tão baixos de turismo comparando com o seu absurdo potencial? Altos preços de passagens aéreas, administrações incompetentes e afins ajudam a manchar a imagem do Brasil como possível destino. Mas um país que faz filmes de guerra urbana ou com o nosso lado mais triste, o que esperar em troca? Nunca vi um filme que mostrasse a costa nordestina, muitos destinos paradisíacos que tive o prazer de conhecer.
Outro ponto complicado do turismo é a inocência dos gringos em terras tupiniquins. “Onde deixar o dinheiro? No hotel é perigoso que os funcionários roubem. Mais seguro levar comigo!”, pensam eles – inocentemente. Correntes de ouro, jóias, computadores portáteis. Alvo fácil e certo. Falta malandragem aos gringos ou sobra malandragem aos brasileiros? Difícil saber. Aqui na Suíça quase não existe crime ou roubo, não precisa. Mas quando tem roubo, são nas mansões das pessoas mais ricas. Porque brasileiro rouba para matar a fome. Suíço, já que vai roubar, que seja em alto-estilo.
Boa parte dos americanos são doutrinados como bonecos pela mídia. Não sei se são capazes de distinguir o que é uma guerra real ou um novo filme. Antes intocáveis e indestrutíveis, agora estão tomando noção da ameaça asiática e do peso do Euro. Um povo frio, sem sentimentos. Fico triste pela americanização ser como um vírus que se espalha pelo mundo, e infelizmente em boa parte do Brasil. Cotas de cinemas, TVs e rádios para nos bombardear com a arma mais perigosa que existe, a mensagem subliminar.
Jovens australianos têm dinheiro, são quase todos esportistas, mas não têm malícia alguma com as mulheres. Provavelmente uma grande herança da colonização inglesa. Quase sempre preferem beber tudo que podem e acabar com uma bela briga. Não é a toa que boa parte das australianas já conhece a fama dos brasileiros de “bons de serviço”. Já dei muita risada com tantos depoimentos de amigos e amigas brasileiros sobre o comportamento dos australianos. Quem sabe agora com tantos brasileiros por lá eles não aprendam um pouco.
Os países asiáticos são conhecidos pela triste semelhança com o Brasil na questão das desigualdades sociais. Turismo sexual, corrupção, drogas. Além de ataques terroristas e outros problemas culturais. A Tailândia tem tantos belos visuais quanto casas de massagem e prostituição. Indonésia, paraíso dos surfistas, também reserva belezas indescritíveis. Cingapura me surpreendeu pela tecnologia e estrutura, mas conheci pouco. Um forte comércio gira em torno destes países, o que ajuda no turismo. Mas o Brasil tem também suas belezas naturais, sendo que a Ásia seja mais perto e em conta para os Europeus e Australianos. Ásia também ganha na questão do inglês, que por mais precário que possa ser, é falado por quase todos. Mas o abismo cultural é gigantesco. Diferentes religiões, credos, costumes… brasileiros são abertos e mais adaptados com a cultura americana e européia, que no Brasil quase sempre se sentem em casa. Na ásia muitas vezes eu me sentia em “outro planeta”.
Os suíços soltam tanta fumaça quanto suas chaminés, fumam compulsivamente. Vejo tantos jovens e até crianças fumando sempre, talvez para parecerem mais velhos. Ou porque os pais e irmãos mais velhos fumam. Ou mesmo porque todos os outros amigos fumem. Me dá uma angústia terrível, menos mau que agora é proibido fumar em ambientes fechados. Me lembra São Paulo, onde se fuma mais no Brasil. Podem dizer que jovens brasileiros bebem muito, usam drogas, fumam também. Mas nada justifica que, em um lugar onde tudo funcione quase perfeitamente, não haja nenhuma luta concreta contra esse vício terrível. Talvez porque no fim a grana vinda das empresas de tabaco façam os bancos e governo suíço ainda mais ricos. Pais viciam os filhos e a vida segue – fedendo e respirando com dificuldade.
Ingleses são conhecidos pela antipatia, falta de higiene, pior cozinha do mundo e por serem maus amantes. Mas o que me chamou muita a atenção foram os dentes. Parece que eles simplesmente ignoram este “detalhes técnico”. No Brasil, muita gente gasta o dinheiro que não tem para tentar conservar um sorriso saudável e apresentável. Além de muito higiênicos. Já vi muito brasileiro ser xingado em outros países por ter demorado no banho ou até por tomar um banho por dia ou mais. O costume deles é realmente outro. Não sei em qual freqüência – e nem quero saber.
Irlandeses conseguem magicamente superar os ingleses na questão do álcool. Bebem alucinadamente. Talvez cultivando o senso de inferioridade diante dos visinhos. Um país que esta crescendo, atraindo muita mão de obra brasileira, mas que torna-se potencialmente depressivo pelo clima quase sempre chuvoso e muito frio. Tem também suas belezas, mas nada perto do nosso Brasil. Pelo menos, em confronto aos ingleses, são muito mais gentis e abertos.
Brasileiro faz piada até de si mesmo. Rimos da própria desgraça e nos multiplicamos em tantos para fazermos da vida um lugar melhor. Não fazemos guerra, não fazemos inimigos. Vivemos esperando por dias melhores. E eles virão.
Espero que um dia, para fazer a vida, brasileiro não tenha que ir para outro país. Tenho saudade dos verões intermináveis, de colocar uma bermuda e um chinelo e estar pronto para sair. De fazer um churrasco em casa reunindo os amigos. De ver neve só pela TV.
Temos tudo! E o pior de tudo é que sabemos.
Abraço e muita paz!
Michel P. Zylberberg
www.rodandopelomundo.com





















